Cimeira da NATO tenta mostrar coesão que dificilmente será conseguida

Os Estados-membros europeus não estão ainda seguros da posição dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, a Turquia quer maior comprometimento dos aliados, apesar de ser um país necessariamente próximo da Rússia. E depois, há sempre a questão do dinheiro. Tudo a partir de Ancara, a 7 e 8 de julho.

Cimeira da NATO tenta mostrar coesão que dificilmente será conseguida
epa11634956 New NATO Secretary General Mark Rutte gives his first press conference after he succeeds Jens Stoltenberg as NATO Secretary General, at the Alliance headquarters in Brussels, Belgium, 01 October 2024. Former Dutch Prime Minister Mark Rutte succeeds Jens Stoltenberg as Secretary General of the North Atlantic Treaty Organization (NATO) on 01 October 2024 after the latter's ten years at the helm of the Alliance. EPA/OLIVIER HOSLET

Já é uma tradição: as cimeiras da NATO sob o domínio de Donald Trump em Washington nunca mais foram uma conversa amena entre quase 30 países que tinham mais certezas que dúvidas: sabiam quem era o inimigo, tinham a certeza que todos tomariam conta de todos e que o ‘grande irmão’ norte-americano trataria de afastar toda e qualquer ameaça, por muito perniciosa, armada ou vocabularmente autoritária que fosse.

Com Donald Trump (no primeiro e no segundo mandato), tudo isso acabou. As conversas entre os 32 Estados-membros deixaram de ser amenas, a Rússia pode já não ser o inimigo principal (talvez seja a China, desde a cimeira de Londres em 2019, mesmo que a aliança não tenha funções previstas para o Pacífico) e, principalmente, ninguém tem a certeza que todos estão empenhados em defender todos. Donald Trump há de saber que, uma vez instalada a dúvida sobre o assunto (se aceitaria sem reservas defender qualquer Estado-membro, como propõe o famoso artigo 5.º) – e foram declarações suas que instalaram essa dúvida – só há uma forma de ela ser ultrapassada: em cenário real.

Vários analistas afirmam que essa dívida equivale à morte da própria NATO. E que, quando Trump pediu aos Estados-membros auxílio para defender o Estreito de Ormuz e todos sem exceção ‘assobiaram para o lado’, ao presidente dos Estados Unidos ficou claro que a aliança não serve para mais nada. A não ser para vender armas, como ficou claro na cimeira do ano passado. Na cimeira de Haia, Trump negociou um acordo no qual os países europeus da NATO se comprometeram a financiar e comprar armas produzidas pelas indústrias dos Estados Unidos. De fora ficava a possibilidade, anunciada pouco tempo antes pela União Europeia, de criar um setor de defesa que abastecesse as necessidades de armamento do bloco. Nada disso, afirmou Trump: as armas são para serem compradas nos Estados Unidos – injetando assim milhares de milhões de dólares no setor de defesa do seu país.

Entretanto, na passada semana, Trump voltou a criticar a NATO. “É ridículo para os EUA continuarem neste caminho de via única quando a relação não é recíproca. Eles não estiveram lá por nós!!!”, disse Trump nas redes sociais na sexta-feira. O ‘post’ inclui um gráfico com supostos gastos dos países-membros com a NATO. Os Estados Unidos aparecem com 999 mil milhões de dólares, muito acima do Reino Unido (90,5 mil milhões), da França (66,5 mil milhões), da Itália (48,8 mil milhões) e da Polónia (44,3 mil milhões).

 

O problema turco

Outros dos pontos de fricção da agenda da cimeira desta semana tem a ver diretamente com o país anfitrião. Uma das estratégias de Ancara em termos de política internacional é a tentativa de manter uma equidistância equitativa entre todos os países que têm implicação direta no país. Por questões geográficas (mas também religiosas), a Turquia não pode ter uma atitude de confrontação com a Rússia. As inúmeras vezes que Moscovo pensou e chegou a estudar campanhas militares para tomar a cidade de Istambul e a partir daí os Dardanelos e a costa oeste de todo o Mar Negro aconselham vivamente a que o tema esteja constantemente nas preocupações centrais de qualquer governo de Ancara.

Talvez tivesse sido por isso que, em 2019, Ancara tomou a bizarra decisão de comprar o sistema de defesa antiaérea S-400 à Rússia, o país que o criou. Washington ficou possesso, como outra coisa não seria de esperar. Mas a reação foi mais bruta que aquela que Ancara esperava: os Estados Unidos expulsaram oficialmente a Turquia do programa de desenvolvimento e compra dos caças F-35 de última geração; e impediram que os helicópteros de ataque turcos TAI T129 ATAK (que utiliza motores de tecnologia norte-americana desenvolvidos pela Honeywell e pela Rolls-Royce) fossem vendidos a países terceiros (no caso, o Paquistão, num negócio avaliado em 1,3 mil milhões de dólares).

Agora, como anfitrião, e segundo os analistas, Ancara está interessado em regressar ao bom entendimento com os seus parceiros. No caso dos Estados Unidos, terá enormes dificuldades: o presidente turco, Recep Erdogan, tem sido dos líderes mundiais mais críticos do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, ao mesmo tempo que coincide com a Rússia e com a China na Organização para Cooperação de Xangai (OCX) e nos BRICS, organizações de que a Turquia (não sendo membro de pleno direito) é estatutariamente “parceiro de diálogo”. Washington tem sérias reservas sobre tudo isto.

Mesmo assim, a Turquia quer impor temas de interesse regional na agenda. Um deles é a Iniciativa de Cooperação de Istambul (ICI): Ancara pretende aprofundar os laços de defesa e contraterrorismo da NATO com os seus parceiros do Golfo Pérsico (como o Bahrein, Kuwait, Qatar e Emirados Árabes Unidos) para estabilizar o Médio Oriente. A segurança do Mar Negro também deverá suscitar discussões urgentes sobre o impacto dos conflitos regionais adjacentes às fronteiras turcas.

 

Declaração final já preparada

Para todos os efeitos, a NATO devem reafirmar o seu compromisso inabalável com o Artigo 5.º do Tratado e declarar que a Rússia representa uma “ameaça a longo prazo à segurança e estabilidade euro-atlântica” na declaração final da cimeira. Uma cópia do documento dado a conhecer pela agência Euronews contém uma declaração de que “o Irão jamais poderá ter uma arma nuclear” e compromete-se com um apoio extra de 70 mil milhões de euros à Ucrânia, com “níveis pelo menos equivalentes” de apoio a serem recebidos em 2027.

A declaração é o texto final predefinido da cimeira, negociado pelos todos os 32 aliados, incluindo os Estados Unidos. Embora o documento já tenha sido acordado ao nível dos embaixadores, os líderes ainda precisarão de o subscrever no final da cimeira, a 8 de julho. “A Declaração de Ancara será divulgada assim que for acordada pelos líderes aliados na cimeira da NATO na quarta-feira”, disse um porta-voz da organização à Euronews.

Na cimeira, os membros europeus da NATO tentarão convencer a administração Trump de que a responsabilidade pela segurança europeia deixou de recair sobre as forças armadas dos Estados Unidos, com a aliança agora a caminhar rumo à chamada NATO 3.0 – um acordo de segurança transformado, com a Europa no comando da sua própria defesa, ainda segundo a Euronews. Ora, esta tentativa entra em contradição com o texto pré-definido – que assim pode ter de ser reescrito conforme for a decisão dos Estados Unidos.

A acrescentar, há ainda a retirada de tropas dos Estados Unidos estacionadas na Europa – nomeadamente na Alemanha – o que constitui outra contradição no discurso, como avançam vários analistas. Em maio, os Estados Unidos anunciaram que estão a reduzir o conjunto de recursos militares da NATO, com vários bombardeiros de longo alcance, caças, submarinos e navios de guerra a deixarem de estar disponíveis para uso europeu em tempos de guerra – o que tem diretamente a ver com o facto de os aliados europeus terem recusado ajudar os Estados Unidos na guerra contra o Irão. Neste aspeto, o caso de Espanha é o mais notório: o chefe do governo, o socialista Pedro Sánchez, fechou as bases aéreas em solo espanhol à utilização de suporte dos Estados Unidos à ação militar no Médio Oriente.

Na cimeira, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, irá insistir para que a Europa e o Canadá aumentaram os gastos essenciais com defesa em 20% em relação ao ano anterior – e num compromisso de gastos de 5% do PIB em defesa. A Espanha já recusou e conseguiu mesmo uma exceção regulada com a NATO para manter os gastos apenas ligeiramente acima dos 2%.

Um dos marcos práticos da agenda (agendado para o dia 7 de julho no complexo ATO Congresium) é o diálogo direto entre governos, as chefias da NATO e líderes das indústrias de armamento. O foco é transformar as promessas de investimento em capacidade industrial concreta, otimizando as linhas de produção militar para repor stocks europeus e cumprir os acordos de compras de armamento aos Estados Unidos.

Relacionado

Reservas de gás da União Europeia estão no nível mais baixo em 15 anos

Reservas de gás da União Europeia estão no nível mais baixo em 15 anos

Ruben Pires3 Set
De acordo com a publicação BiGo Finance o nível de reservas de gás que a União Europeia detém nesta altura deve-se a um erro de cálculo. O bloco europeu vinha adiando as compras de gás na expetativa de que o conflito no Médio Oriente, que se iniciou em fevereiro entre Estados Unidos, Israel, e Irão, tivesse um desfecho rápido, permitindo que o gás natural vindo do Qatar voltasse a passar pelo Estreito de Ormuz a um preço mais baixo. Contudo o cenário de momento não se concretizou.