Uma mentira, por muitas vezes que seja repetida, e ao contrário do pretendido, não se torna realidade.
Vem esta introdução a propósito de algumas mentiras que continuam a circular e que convém clarificar. Uma delas remete para o mercado de capitais português e para a necessidade de este se impor como uma alternativa ao financiamento das empresas. Na última semana, os comentários e apelos à dinamização do mercado português provam que a realidade é muito diferente do nosso saudosismo.
Em 1993, quando iniciei o meu percurso na bolsa como investidor, com 16 anos, havia uma grande apetência pelo mercado de capitais. Actualmente, o número de empresas cotadas e os sectores de actividade representados na bolsa são uma miragem e isto quando ainda não tínhamos assistido às grandes privatizações que trouxeram visibilidade ao mercado português. Os investidores acreditavam nas empresas, nos empresários, nos resultados divulgados, em alguma protecção, longe de Directivas europeias que deitam areia para os olhos dos investidores. Apesar de nessa altura existirem OPAs e controlos de empresas negociados, havia mais confiança.
Hoje temos vergonha de assumir que o mercado português está abandonado, fruto de ganância e poder, destruindo o capital de confiança e as poupanças de décadas dos investidores, e não oferecendo segurança. As empresas abandonaram a bolsa, foram retirados incentivos fiscais, as taxas de imposto dispararam dos 10% para os 28%, os mecanismos de protecção aos investidores falharam ou são inexistentes, e os próprios empresários não querem submeter-se a tanta regulação, com custos elevados para as empresas cotadas. A bolsa portuguesa nunca mais voltará a ser o que era por uma razão muito simples – não existe procura nem oferta.
Outra mentira é a introdução da taxa sobre transacções financeiras. Em 2012, quando este imposto foi anunciado, ia resolver o problema do défice. Uns anos mais tarde, esquecido, remediava as contas. Agora, ressuscitado, apenas irá gerar alguns milhões de euros. Este é um exemplo de como taxas e taxinhas, embora populares porque punem o capital, apenas servem para afastar ainda mais os investidores particulares do mercado financeiro e dificultar o acesso das empresas aos mercados. Seria mais interessante questionar porque razão as bolsas de futuros americanas aceitaram transaccionar futuros de Bitcoins, e um dos maiores bancos do mundo aceitou proceder à sua liquidação, promovendo confiança junto dos investidores, num mercado paralelo, sem taxas e pouca ou nenhuma regulação.
E aqui chegamos à terceira mentira, a das criptomoedas. Não só não irão acabar como irão tornar-se mais populares, forçando uma descentralização nos pagamentos e a actuação por parte dos bancos centrais e sistema financeiro. Com os mais jovens a não acreditarem no sistema político e económico actual, será necessário mais do que políticos 4.0 para inverter o conflito geracional dos próximos anos.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.