As linhas vermelhas na questão ucraniana

O que está verdadeiramente em causa é a liberdade do povo ucraniano e a afirmação da sua identidade, que não é russa e que, sobretudo, já não é soviética.

As linhas vermelhas na questão ucraniana
Pedro-Neves-de-Sousa_final

No mundo acelerado em que vivemos, faz falta parar para pensar. Thomas Friedman discorreu bem acerca desta ideia, quando escreveu o inspirador “Obrigado pelo atraso”, assente na ideia de que um atraso para uma reunião pode ser uma oportunidade para contemplar ao invés de olhar, para pensar mais demoradamente acerca de um assunto, para accionar o nosso lado criativo ou até para ouvir a interessante conversa ao lado.

Estou em crer que a normalização de um conjunto de factos que vão ocorrendo à vista de todos deriva única e exclusivamente dessa obsessão colectiva pela pressa e pelo imediatismo, que faz esfriar a riqueza, o calor e a solidariedade da relação humana.

Temos assistido nestes dias a uma luta de David contra Golias, em que num ápice parece que se rasgaram um conjunto de princípios. Ver a comunidade internacional a falar de sanções à Rússia pela invasão de um Estado soberano faz lembrar as situações de bullying nas escolas, em que os terceiros assistem, criticam, mas não tomam uma posição firme. Quando é connosco ou com os nossos, a conversa, contudo, já é outra.

Por vezes, as regras do direito internacional são claramente ultrapassadas e a sua interpretação é casuística e teleologicamente orientada.

Outras vezes, as regras de direito internacional não chegam sequer a ser aplicadas, quando na verdade existem factos que se subsumem a regimes jusinternacionais acordados pelos Estados.

Por outro lado, a aplicação do direito internacional, mercê da sua intrínseca e genuína natureza política, está permanentemente condicionada pela geopolítica e pelas estratégias das mais fortes potências mundiais, a que não são alheios os interesses económicos e os lobbies que circulam em seu redor, bem como um determinado conceito civilizacional de matriz ocidental que se tem incompatibilizado com os princípios orientadores de outras correntes, como o islamismo.

O que acaba de se escrever não pretende anunciar um manifesto contra o direito internacional ou contra a sua eficácia ou aplicabilidade, consubstanciando tão-só e apenas um sucinto desabafo acerca do desrespeito pelas normas de direito internacional e da não resolução de determinadas situações, como sucedeu, por exemplo, entre a Federação Russa e a Chechénia.

A recente invasão da Ucrânia pela Rússia atingiu o que de mais sagrado existe na existência humana: a liberdade. O que está verdadeiramente em causa é a liberdade do povo ucraniano e a afirmação da sua identidade, que não é russa e que, sobretudo, já não é soviética.

Há épocas na história em que devemos promover a diplomacia e outras há em que se impõe tomar uma posição. Hoje não há desculpas. Hoje é dia de ser maniqueísta, colocando os maus à margem. Defender o contrário só pode encontrar inspiração em cegueiras ideológicas ou revisionismos históricos.

Os casos do ex-agente da KGB Alexander Litvinenko, da jornalista Anna Politkovskaya ou do advogado Stanislav Markelov são exemplos de mortes oficialmente misteriosas, mas cuja resposta não necessita da ajuda de nenhum Sherlock Holmes. E todos assobiaram para o lado.

Se não nos importarmos com os outros, estamos a falhar o dever de solidariedade com os nossos princípios e valores democráticos, calcando de forma inadmissível as linhas vermelhas próprias dos defensores da liberdade e do direito à autodeterminação dos povos.

Mas neste caso concreto podemos ainda beber as palavras do teólogo alemão, e opositor do nazismo, Martin Niemöller no poema “E não sobrou ninguém”, que relata uma realidade em que alguém não se importou quando levaram os comunistas, os sociais-democratas, os judeus, os sindicalistas e os católicos, e quando o levaram, “já não há ninguém para se importar com isso”. Hoje é dia de tomar posição e dar a mão ao povo ucraniano.