Mário Roque, Colecionador e antiquário

Arte, extra+

A arte funciona como um antídoto contra o caos, uma forma de resistência capaz de nos mostrar novas e paradigmáticas linguagens. Além de ser um investimento.

Épocas de crise como a que vivemos atualmente, com reflexos em todos os setores de atividade, afetam menos aqueles que investem em arte e antiguidades. E basta olhar para a história do século XX para percebermos que os cíclicos desaires económicos e financeiros foram sempre um impulso para o investimento nestas áreas. Efetivamente, as quedas vertiginosas da bolsa e outras aplicações sempre incentivaram o mercado da arte, com um disparo exponencial.

A chegada da covid-19, de forma abrupta e global, pandemia que põe em risco valores tão absolutos como a vida, as estruturas familiares e sociais como as conhecemos, veio provocar uma retração inesperada na economia que está a conduzir a uma queda nos investimentos tradicionais. O nosso país, ainda a recuperar da crise de 2008, terá que concentrar todos os esforços para fazer face a esta realidade, de forma a minorar as perdas que daí advêm.

A situação coloca problemas de adaptação em todas as áreas, às quais o mercado da arte e antiguidades não é exceção. E muito embora deva passar por uma regressão nos próximos dois a três meses, o mercado da arte continua a ser um dos investimentos mais seguros a breve prazo. Ao rebound da crise deve suceder-se um boom marcado por grande procura que fará disparar cotações.

Por este motivo, e aproveitando a recessão que se anuncia, creio ser o momento exato para investir, antecipando o aumento exponencial de preços que se seguirá.

Esta é também a altura de refletir sobre o papel da arte na nossa vida e bem-estar. Sobre o prazer que sentimos em apreciar objetos que desejamos possuir. Uma espécie de lazer confinado ao espaço que habitamos, minimizando o isolamento a que estamos obrigados.

Os principais Antiquários e Galerias de Arte, assim como Feiras Internacionais – sendo exemplo a Feira de Basel e de Hong Kong que viram as suas edições canceladas – procuram reinventar-se aderindo ao High-Tech como forma de chegarem não só aos habituais colecionadores mas também a novos investidores, através de websites, Instagram shows, Twitter e Facebook, com consulta e acesso à distância de um simples clique.

Chamo a atenção para o cuidado a ter na escolha, que deverá ser baseada em critérios rigorosos, como por exemplo o reconhecimento mundial das galerias e das associações a que pertencem – e que certificam a sua idoneidade – sendo exemplos a Associação Portuguesa de Antiquários, o SNA,  em França ou a LAPADA, em Inglaterra. É também essencial (eu diria obrigatório) obter o maior número possível de garantias sobre as obras, tais como certificados de autenticidade emitidos por peritos reconhecidos, “condition reports” detalhados e proveniências comprovadas.

Esta é uma forma de investir em arte comodamente em nossa casa. Repito, o segredo é ter as devidas precauções. Existem antiquários com um serviço de assessoria e aconselhamento de grande qualidade, contribuindo para uma escolha criteriosa e segura, e que constitui uma mais-valia para os menos familiarizados que começam agora a aventurar-se.

Estamos a viver uma época estranha, em que tentamos ganhar perspetiva em meio à avalanche de informações alarmantes sobre o que se passa no mundo e a que não podemos ficar alheios, porque a todos afeta: o Brexit, as catástrofes ambientais, o crescimento de movimentos extremistas na Europa….

Mais do que nunca, a arte deve ser tida como um investimento e não como um escape. Uma ferramenta importantíssima para perspetivar a história do mundo e das civilizações, encarar com resiliência tempos complicados, um antídoto contra o caos, uma forma de resistência capaz de nos mostrar novas e paradigmáticas linguagens.

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