Ambientalistas pedem ao regulador chumbo dos investimentos nas redes de gás

GEOTA critica expansão da rede de gás e teme impacto nas tarifas pagas pelos consumidores.

Ambientalistas pedem ao regulador chumbo dos investimentos nas redes de gás
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O GEOTA – Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente – veio hoje criticar os planos de desenvolvimento e investimento nas redes de distribuição de gás para 2027-2031, cuja consulta pública realizada pelo regulador ERSE termina esta segunda-feira.

O GEOTA pede ao regulador liderado por Pedro Verdelho para chumbar o plano de investimentos. A ERSE emite um parecer não-vinculativo, mas a decisão final cabe à ministra do Ambiente e da Energia, após o plano ser debatido no Parlamento.

O plano apresentado pelos diversos operadores propõe o investimento de 407 milhões de euros, com 250 milhões a destinarem-se à expansão das redes e à criação de 113 mil novas ligações, com, pelo menos, 1.150km de nova rede e quase 42 mil ramais.

“Não é coerente investir em mais de cem mil novas ligações de gás quando a política energética europeia aponta para uma meta de 46% de eletrificação do consumo final até 2040 e quando o próprio Governo português aposta na eletrificação das habitações. Esta expansão prende novos consumidores a uma infraestrutura fóssil durante décadas e cria o risco de estes investimentos perderem utilidade muito antes do fim da sua vida económica”, disse Miguel Macias Sequeira, vice-presidente do GEOTA e investigador em energia e clima no CENSE NOVA-FCT.

A maioria do investimento destina-se aos segmentos doméstico e de pequeno consumo, enquanto a indústria representa uma parcela reduzida, sinaliza o GEOTA, considerando que “esta opção prolonga a utilização de gás em edifícios onde já existem alternativas elétricas mais eficientes, como as bombas de calor”.

“Expandir uma infraestrutura cuja utilização tenderá a diminuir aumenta o risco de ativos encalhados e de uma espiral tarifária, em que custos fixos cada vez mais elevados são repartidos por um número cada vez menor de consumidores”, alerta o GEOTA.

O Grupo avisa que esta estratégia “agrava também a vulnerabilidade energética de Portugal, que continua a importar todo o gás natural que consome. A crise energética desencadeada pela invasão da Ucrânia e as recentes perturbações nos mercados internacionais demonstram os riscos económicos associados à dependência de combustíveis fósseis importados. A Comissão Europeia estima que a eletrificação poderá reduzir as importações europeias de gás em mais de 70% até 2040”.

Apesar de reconhecer o potencial do biometano para “valorizar resíduos, reduzir emissões e promover a economia circular”, com as estimativas a apontarem para uma produção equivalente a 9% do consumo nacional de gás previsto para 2030, o GEOTA considera que “que não justifica a expansão generalizada das redes. O biometano e o hidrogénio renovável deverão ser prioritariamente direcionados para os setores onde a eletrificação é mais difícil”.

“Portugal precisa de começar a decidir onde as redes de gás continuarão a ser necessárias e onde deverão ser desativadas de forma gradual e planeada. Sem essa estratégia, os últimos consumidores ligados, frequentemente os mais vulneráveis, poderão acabar por suportar tarifas desproporcionadas para manter uma infraestrutura cada vez menos utilizada”, acrescenta Miguel Macias Sequeira.

Assim, defende a criação de um plano nacional “territorialmente diferenciado e socialmente justo para a manutenção e desativação progressiva das redes de gás. Esse plano deverá identificar as infraestruturas estratégicas a preservar, definir prioridades para a transição energética e assegurar transparência, proteção dos consumidores vulneráveis e participação pública”.

Desta forma, pede à ERSE que “emita parecer desfavorável às propostas na sua configuração atual. Ao Governo, o GEOTA pede que substitua a expansão cega das redes de gás por uma estratégia nacional coerente com os objetivos de descarbonização, reforçando o investimento na eficiência energética, na geração descentralizada de energia solar e nas comunidades de energia”.

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