A água captada em Castelo de Bode, distrito de Santarém, já abastece Lisboa e pode vir a ser hipótese para abastecer o concelho de Almada, que tem sofrido na última semana com falta de água.
A hipótese foi avançada esta terça-feira pela ministra do Ambiente que defende que o concelho precisa de ter redundância no abastecimento, juntando a água de Castelo de Bode ao aquífero do distrito de Setúbal, a atual fonte de fornecimento.
“A EPAL irá estudar e vamos reunir com os municípios [do distrito de Setúbal] para saber também a opinião deles, porque isto pressupõe que eles se unam, pelo menos em alta [captação de água], e haja aqui uma gestão, por exemplo, da EPAL, para que haja uma transferência de água que vem de Castelo de Bode, que alimenta a margem norte do Tejo e que faça também a alimentação da margem sul. E aí ficam com duas alternativas, o aquífero e a água de Castelo de Bode”, disse esta quarta-feira Maria da Graça Carvalho.
A ministra anunciou hoje que vai reunir-se com autarcas do distrito de Setúbal para perceber a sensibilidade para adotarem fornecimento de Castelo de Bode, como complementar ao aquífero Tejo – Sado.
Mas isto é no médio prazo. No curto prazo, está previsto um novo furo a alimentar Almada com origem no concelho do Seixal, tendo já outro furo arrancado no sábado, também com origem no Seixal.
A ministra também disse que “Almada tem aumentado de população e aumenta muito no verão e, como é óbvio nos dados do regulador ERSAR não têm sido feitos os investimentos que a ERSAR considera adequados e a renovação que se considera adequada da rede de distribuição”, com um rácio de recuperação de 0,3% face aos 1,5% considerados “adequados” pelo regulador.
” É preciso haver uma redundância e é uma zona que está a crescer muito, em proporção à economia, empresas, agricultura, há uma grande atração na economia e que traz tantas pessoas para aquela zona, portanto, precisamos de ter uma alternativa ao aquífero”, concluiu.
Moradores do concelho de Almada à beira de um ataque de nervos com falta de água
O concelho de Almada tem sido assolado gravemente pela falta de água, com a autarquia a justificar a escassez pelo disparo no consumo de água.
A falta de água tem afetado o dia-a-dia dos residentes do concelho, tal como o de João Garrido: “Hoje, em minha casa, abri uma torneira e a água simplesmente deixou de correr. Não foi um episódio isolado. No concelho de Almada, a falta de água deixou de ser uma ocorrência pontual e passou a fazer parte do quotidiano de muitos munícipes. Todos os dias surgem novos relatos, novas queixas e novas notícias. A situação tornou-se insustentável. Em dias de calor intenso, numa altura em que o acesso à água é ainda mais crítico, esta realidade é absolutamente inaceitável”, escreveu o munícipe nas redes sociais, deixando críticas aos argumentos da autarquia.
O empresário destacou que o consumo fatura em Almada variou entre 175 e 184 litros diários por habitante, próximo da referência nacional de 180 litros.
Em 2024, a água captada por residente atingiu os 269 litros por dia, com a água fatura a cair para 179 litros por dia: uma diferença de 90 litros por residente e por dia.
“Onde ficam os cerca de 6 milhões de m³ de água captados anualmente, mas não faturados”, questionou João Garrido que pede explicações à autarquia de Almada: “Cabe agora à Presidência da Câmara Municipal de Almada explicar à população como foi planeado, mantido e preparado um serviço público tão essencial como o abastecimento de água”.
“Oss próprios serviços estão a admitir que o sistema não está dimensionado para responder às necessidades reais do concelho. Isto não é apenas um problema técnico. É uma falha de planeamento, de gestão, de investimento, de manutenção e de responsabilidade política. O acesso à água não é um luxo. Não é um serviço acessório. Não é uma comodidade que possa falhar diariamente sem consequências. É um bem essencial, ligado à saúde pública, à dignidade das pessoas, à segurança das famílias, ao funcionamento das empresas e à vida normal de uma comunidade”.
Também o jornalista Miguel Szymanski deixou críticas à autarquia. “Estamos há semanas com falta de água na Costa da Caparica. O problema tem-se agravado, de ano para ano. As explicações da empresa/serviço municipal responsável são tardias e patéticas. A falta de água na rede pública é uma consequência da falta de planeamento e de noção das prioridades: construir uma estação de dessalinização de água do mar para abastecer as populações da Trafaria, Costa da Caparica, Sobreda etc. (no Algarve está uma grande central em construção) terá aproximadamente o custo das obras de ampliação do IC20/Via Rápida feitas ao longo de oito km entre Almada e a Costa da Caparica e terminadas no ano passado”.
“O projeto duma central de dessalinização deveria ter sido aprovado há três anos, quando os problemas começaram a agudizar-se. E poderia estar a funcionar hoje. Quanto ao local onde ir buscar a água do mar para dessalinizar, tenho uma sugestão que gostaria de passar aos responsáveis políticos: que tal o Oceano Atlântico aqui mesmo à porta de casa?”, segundo o também comentador e escritor residente neste concelho da Margem Sul do Tejo.
A autarquia de Almada decretou esta semana a situação de alerta no município, reforçando as medidas em curso para “garantir o abastecimento à população e aos serviços essenciais”.
Os Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Almada (SMAS de Almada) disseram esta quarta-feira que a “situação que o concelho enfrenta é excecional e resulta de um aumento muito significativo do consumo de água, que exerceu uma pressão sem precedentes sobre o sistema de abastecimento. Neste momento, é fundamental reduzir rapidamente os consumos para permitir a recuperação dos níveis de segurança dos reservatórios e garantir a continuidade do abastecimento”.
O SMAS disse que o consumo médio em Almada ultrapassa os 300 litros por habitante/dia, enquanto a média nacional é de cerca de 180 litros por habitante/dia. E que até junho de 2026, o consumo aumentou, em média, 4,3% no concelho, com os maiores aumentos nas freguesias: Charneca de Caparica: +15,2%; Sobreda/Lazarim: +15%; Costa da Caparica: +14,2%.
Por sua vez, o município de Almada anunciou que estão assim “proibidas todas as utilizações de água da rede pública que não correspondam a usos domésticos ou essenciais”, como:
· a rega de jardins público e privados, e de campos de golf;
· a lavagem de viaturas;
· o enchimento de piscinas;
· a utilização de chuveiros e lava-pés nas zonas balneares;
· o funcionamento das fontes ornamentais, lagos artificiais e outros elementos de uso estético de água;
· a lavagem de pavimentos exteriores, logradouros, paredes e telhados, com exceção de intervenções de conservação do edificado;
· outras utilizações recreativas ou não indispensáveis.
A autarquia anunciou várias medidas, incluindo o “reforço permanente da monitorização do sistema de abastecimento e dos níveis dos reservatórios; reforço das equipas técnicas para deteção e reparação urgente de fugas e roturas; reforço das equipas de fiscalização para prevenir consumos abusivos, utilizações ilegais de água e desperdícios; garantia do abastecimento aos equipamentos e serviços essenciais, nomeadamente hospitais, centros de saúde, lares, bombeiros e restantes infraestruturas críticas; disponibilização de meios alternativos de abastecimento, incluindo camiões-cisterna, nas zonas onde tal venha a revelar-se necessário; reforço da articulação com municípios vizinhos e restantes entidades competentes para assegurar toda a capacidade de resposta disponível”.