Nos últimos 10 anos, a indústria portuguesa reinventou-se. Portugal deixou de ter apenas mão-de-obra competitiva, passando a valer-se também do conhecimento em engenharia e tecnologia que foi adquirindo. Os últimos 10 anos da indústria portuguesa tiveram altos e baixos. Onde estamos neste momento? E para onde podemos caminhar?
Qual o percurso da indústria portuguesa nos últimos 10 anos?
Há 10 anos, a indústria portuguesa vivia o início da denominada Quarta Revolução Industrial (ou Indústria 4.0). Impulsionada por tecnologias inovadoras que causavam efeito tanto nos sistemas de produção como nos modelos de negócio. Assistia-se a uma diminuição dos custos, e a um aumento de conectividade das pessoas à internet. O “estar sempre online” passou a fazer parte do dia a dia, graças ao aumento da capacidade de smartphones, tablets ou computadores portáteis. Enquanto isso, conceitos como big data, advanced analytics, cloud computing e internet of things (IoT ou internet das coisas) começavam a fazer parte do léxico da indústria portuguesa.
Pelo meio, uma pandemia: a de Covid-19. A indústria foi dos setores mais afetados, devido à falta de fornecimento de materiais necessários à produção, originários de países onde o vírus tinha tido uma maior incidência, ou por constrangimentos do lado da procura. Mas se por um lado teve efeitos devastadores na economia, por outro, a Covid-19 acelerou aquilo que poderia levar anos a implementar: a automação e gestão de dados.
Os anos seguintes até aos dias de hoje foram de recuperação para a indústria, para a qual muito contribuiu o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e os fundos europeus, ambos injetados diretamente na modernização industrial
Automação: uma realidade nos dias de hoje?
Em 2016, o Compete 2020 previa que o passo seguinte da digitalização da economia seria permitir processos mais eficientes, reduzir os consumos de energia e minimizar desperdício com produtos de elevada customização e adaptados ao cliente. Quanto às fábricas, entendia-se que seriam cada vez mais automatizadas, com sistemas ligados entre si. Dez anos volvidos, não estamos longe deste cenário. A automação da indústria portuguesa deixou de ser apenas algo das grandes multinacionais, para se tornar numa espécie de estratégia de sobrevivência e competitividade até para as Pequenas e Médias Empresas (PME) — a grande franja do tecido empresarial português. Em parte, esta automação deveu-se à generalização da inteligência artificial (IA), que, apesar das suas vantagens, foi algo sempre visto como uma ameaça à mão-de-obra humana. Porém, de acordo com o ManpowerGroup Employment Outlook Survey, para as previsões do segundo trimestre de 2026, dos empregadores que antecipam uma redução no número de trabalhadores neste período, apenas 15% apontam a automação como estando na origem da redução. Já 17% da organizações planeiam aumentar o número de trabalhadores devido aos avanços tecnológicos que requerem expertise e funções novas. Hoje, o foco da indústria passou a ser o de formar o antigo operador de linha para ser um programador ou supervisor de sistemas automáticos.
Qual a importância da posição geográfica de Portugal para a Europa?
Aquando da pandemia de Covid-19, em 2020, a interrupção das cadeias de abastecimento globais demonstrou que depender da China podia ser um risco. A este acontecimento, outros, como a instabilidade geopolítica, a pressão sobre custos logísticos, as exigências de sustentabilidade e a necessidade de garantir autonomia estratégica, vieram pôr em causa o modelo tradicional de produção à escala mundial. E conceitos como nearshoring passaram a destacar-se: produzir mais perto do mercado de destino, com cadeiras de valor mais curtas, resistentes e eficientes. Muitas empresas industriais, sobretudo no setor alimentar e na distribuição, começaram a perceber que mais do que uma tendência, o nearshoring e as cadeiras de valor mais curtas eram uma oportunidade para ganhar competitividade.
Portugal foi considerado, pelo Nearshoring Index 2024, da Savills, o país mais atrativo do mundo para investir em indústria, para empresas que procuram cadeiras de abastecimento nearshore. Do estudo, faziam parte 26 países, e entre os fatores que levaram Portugal ao primeiro lugar encontravam-se a resiliência, o custo económico (rendas, energia e custos laborais), o ambiente empresarial e o desempenho ESG. Produzir mais perto deixou de ser visto como um custo acrescido; pelo contrário, pode até significar crescimento sustentável e competitivo. Aos fatores enumerados pela Savills, há ainda que adicionar outros que fazem com que Portugal ofereça mais condições para atrair investimento industrial:
- Localização estratégica na Europa e portas para África e Brasil;
- Talento técnico e de engenharia;
- Experiência consolidada em setores industriais exportadores;
- Foco crescente na inovação e na automação.
A indústria está a mudar. Hoje, mais do que baixar custos em produção, é importante não ter de esperar três meses pela chegada de um contentor. Além disso, a economia circular e a sustentabilidade têm ganhado destaque, sobretudo junto das novas gerações (os próximos líderes). E cadeias curtas significam menor pegada de carbono. Além do mais, Portugal destaca-se pelas energias renováveis, tornando o produto final mais “verde”, essencial para as metas ESG das grandes empresas.
Visão para 2036
Se até agora falamos de digitalização, nos próximos 10 anos, possivelmente, viveremos numa nova indústria: a 5.0. Uma indústria em que a tecnologia deixa de ser o fim para passar a ser o meio de potenciar o talento humano, beneficiando tanto a sociedade como o meio ambiente. “Em vez de apenas otimizar máquinas, o objetivo é melhorar a colaboração entre humanos e tecnologia, aprimorando as condições de trabalho e permitindo que os trabalhadores prosperem num ambiente impulsionado pela digitalização. Tecnologias como a IA, a automação e os mundos virtuais devem aumentar as capacidades humanas, em vez de substituí-las, garantindo um equilíbrio entre máquinas e trabalhadores”, lê-se no site do Compete 2030.
Portugal está a começar a quebrar o ciclo de um país dependente do baixo custo, posicionando-se em nichos cujas margens de lucro vêm do conhecimento, da tecnologia, da rapidez. O “made in Portugal” deixou de ser uma “vergonha”, passando a ser uma espécie de status. Para isso, contribuíram também marcas como a Louis Vuitton, que, ao produzir componentes em pele no país, passou a ter o selo “made in Portugal” nos seus produtos, o que vem elevar o país como produtor de luxo. Que outras marcas com valor acrescentado surgirão até 2036?