A nova era da economia portuguesa passa por Amarante

Num momento decisivo para a economia portuguesa, Amarante foi palco de um debate alargado sobre inovação, fundos europeus e competitividade. O Encontro Fora da Caixa juntou empresários, académicos e gestores à procura de respostas para os desafios do futuro.

A nova era da economia portuguesa passa por Amarante
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A edição mais recente do Encontro Fora da Caixa, promovido pela Caixa Geral de Depósitos (CGD) em Amarante, mostrou como o país se está a reposicionar face às incertezas globais, à transformação tecnológica e aos desafios da competitividade. Empresários, académicos e gestores reuniram-se num encontro que ligou estratégia, finanças, desenvolvimento territorial e inovação num momento particularmente sensível da economia se tivermos em conta que as exportações representavam 32% do PIB em 2011 e passaram para 50% nos dias de hoje. Uma mudança que não terá sido espontânea, mas antes uma resposta à adversidade, à falência económica e à pressão da austeridade

Paulo Macedo: “Entrámos numa nova era”

O presidente da Comissão Executiva da CGD, Paulo Moita de Macedo, ofereceu um olhar abrangente sobre a transformação económica global. “Hoje, 90% de todos os dados que existem foram gerados nos últimos dois anos. A velocidade da mudança é vertiginosa”, afirmou, referindo-se à ascensão das tecnológicas, à transição energética e ao regresso de tensões geopolíticas.

Paulo Macedo foi mais longe ao afirmar que estamos perante um verdadeiro ponto de viragem histórico. “O Papa Francisco diz que entrámos numa nova era. Eu partilho dessa ideia. Em 2025, cruzaram-se transformações tecnológicas, políticas e sociais que obrigam as empresas a repensar tudo, da produção às cadeias de valor”.

A CGD, segundo Paulo Macedo, está comprometida com a neutralidade carbónica até 2050 e tem metas intermédias para 2030. A aposta no financiamento sustentável e no apoio à transição energética dos seus clientes é clara: “A nossa abordagem já considera o rating ESG das empresas no relacionamento comercial”, explicou.

Reviva os melhores momentos deste encontro inspirador no vídeo best of que resume a energia, as ideias e os desafios debatidos em Amarante:

Amarante tem tudo para liderar a mudança

Na intervenção central do dia, António Bernardo, sócio-fundador da Vibe Capital Partners e professor da Nova SBE, apresentou uma visão estratégica para o território e para as empresas da região. Destacou o problema demográfico, mas também um “conjunto de ativos e competências que são a base para um novo ciclo de desenvolvimento”, como a agroindústria, o turismo de nicho, a metalomecânica e a tecnologia digital. “O que encontrei em Amarante surpreendeu-me muito positivamente. Há um dinamismo empresarial e institucional raro”, afirmou. Para o especialista, o futuro da região passa por atrair talento jovem, investir na digitalização, adotar práticas de sustentabilidade e reforçar o marketing territorial. “Não é preciso massificar. É preciso diferenciar”, resumiu.

Na frente empresarial, deixou oito recomendações às PME locais, que passam por reforçar o planeamento estratégico, acelerar a internacionalização, apostar na governança e digitalização, integrar a sustentabilidade como proposta de valor e considerar parcerias e clusters. “Precisamos de passar da estratégia à execução”, rematou.

Cautela, mas com otimismo

A presidente da Caixa Gestão de Ativos, Cristina Brízido, apresentou a leitura macroeconómica da entidade. Apontou para um crescimento económico robusto nos EUA, anémico na Europa e acima da média no caso português. O maior fator de risco? A incerteza, sobretudo vinda dos EUA, com impacto nas tarifas, nos impostos e na dívida pública. “A dívida americana já ultrapassa os 120% do PIB. E com a nova lei fiscal que prevê cortes de impostos, a margem de manobra dos EUA para reagir a choques económicos pode ficar muito limitada”, alertou. Ainda assim, o contexto financeiro mantém-se favorável a obrigações e ações, embora com maior prudência do que no início do ano.

Do mercado financeiro passou-se para o pensamento crítico, num diálogo entre ciência e literatura. Um dos momentos mais inesperados e enriquecedores do evento foi a conversa entre o escritor Gonçalo M. Tavares e a investigadora Maria do Carmo Fonseca. No âmbito da série “21 Conversas para o Século XXI”, os dois refletiram sobre os grandes avanços científicos e as suas implicações culturais, sociais e políticas. “A inteligência artificial não é um produto de 2023. É o resultado de décadas de investigação invisível”, frisou Maria do Carmo Fonseca, sublinhando a importância de continuar a investir na ciência fundamental. Já Gonçalo M. Tavares alertou para os riscos do “tecnofeudalismo”, onde “os senhores da cloud concentram um poder desproporcional face às democracias”. Foi um momento de ligação entre pensamento crítico e conhecimento aplicado.

Fundos europeus entre crítica e ambição

A aplicação dos fundos europeus e o impacto na economia portuguesa estiveram no centro da mesa-redonda final do Encontro Fora da Caixa, que reuniu Alexandra Vilela (presidente do Compete 2030), Pedro Dominguinhos (presidente da Comissão Nacional de Acompanhamento do PRR), Vítor Barbosa (CEO da Nautilus) e Francisco Cary (administrador executivo da Caixa Geral de Depósitos).

A conversa arrancou com uma provocação: terão os fundos europeus sido “ouro do Brasil”, como escreveu o historiador Nuno Paulo, ou contribuíram para uma verdadeira transformação estrutural? Para Alexandra Vilela, não há dúvidas. “Os fundos estruturais fizeram de Portugal um país completamente diferente. O país hoje é substancialmente diferente, nomeadamente naquilo que é mais difícil de dirigir: a investigação e desenvolvimento e a inovação”, disse, sublinhando que “sem os fundos, era impossível dar este salto”.

Pedro Dominguinhos foi mais cauteloso e deu nota 6,5 à aplicação dos fundos europeus ao longo das décadas. Sublinhou que “houve avanços importantes, sobretudo na ciência”, mas defendeu que “é preciso trabalhar mais para resultados e impactos”. Já Vítor Barbosa foi direto: “Dava 6”. O CEO da Nautilus defendeu que os fundos são “fundamentais” para a internacionalização, mas alertou para a necessidade de “menos burocracia, menos desconfiança e mais penalizações a quem não cumpre”, para agilizar processos e premiar quem executa com eficácia.

Do lado da banca, Francisco Cary fez um balanço positivo da evolução dos fundos e da própria economia portuguesa. “A qualidade dos investimentos e do processo de escrutínio foi evoluindo. Hoje temos um tecido empresarial mais sofisticado e capitalizado, menos dependente do financiamento europeu”, disse o administrador da CGD. Ainda assim, reconheceu que “as empresas continuam a alinhar os ciclos de investimento com os programas comunitários”.

Durante a conversa, houve críticas ao desenho inicial do PRR, considerado “estatizante”, e à lentidão nos processos de candidatura e pagamento. “Há empresas a pedir devoluções, outras que desistem por excesso de burocracia. Falta confiança entre todas as partes”, afirmou Alexandra Vilela. Pedro Dominguinhos destacou, no entanto, que há uma nova margem de manobra, com a possibilidade de “redesenhar” o PRR e de transferir verbas para instrumentos mais eficazes, como as garantias do Banco de Fomento ou o novo instrumento financeiro que será apresentado em setembro, no qual “a CGD é parceira”.

Na reta final, todos concordaram na necessidade de dar mais escala ao apoio às empresas. Francisco Cary lembrou que “uma empresa com 50 milhões de euros de faturação já não pode ser considerada grande à escala europeia” e defendeu que os limites de elegibilidade dos apoios devem ser revistos. “É muito importante apoiar também as empresas de média e grande dimensão”, concluiu.

Este artigo foi produzido em parceria com a Caixa Geral de Depósitos.

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Inês Correia Botelho25 Jul
Durante o debate "Portugal e os fundos europeus, do planeamento à aplicação", Alexandra Vilela, presidente da Componente 2030, considerou que "os fundos estruturais fizeram de Portugal um país completamente diferente, mudou a capacidade que as nossas empresas têm de inovar". "O nosso orçamento de estado é muito limitado e precisávamos desta alavanca financeira", revelou.