JE Lab e Pedro Vinhas, Senior Manager EY, AI & Data, Technology, Consulting, Financial Services

A Dimensão Menos Visível da Adoção de IA

Segunda-feira de manhã, em algumas organizações, o dia começa com decisões tomadas, prioridades claras e reuniões preparadas. Noutras, começa com caixas de email por abrir e agendas por organizar. A diferença, cada vez mais, está na forma como a Inteligência Artificial (IA) já faz parte do modo de trabalhar.

O que há um ano era ainda uma possibilidade distante faz hoje parte do dia a dia de algumas equipas. Nas organizações que já adotaram IA, o ganho vai além da eficiência. É tempo para pensar, para decidir melhor e para dedicar atenção ao que ficava sistematicamente adiado. A IA não substitui as pessoas, liberta-as para pensar.

É precisamente esta liberdade que coloca um novo desafio às organizações. Os sistemas de IA são hoje acessíveis a todos, com ou sem conhecimento da organização, e é necessário saber o que está a ser usado, por quem, com que dados e com que propósito. Sem esta visibilidade, a adoção transforma-se em exposição, sendo este um risco que exige governo.

O governo de sistemas de IA é a dimensão menos visível, num contexto em que as organizações privilegiam a velocidade de execução. Mas governar não é travar a adoção, é sustentá-la e permitir ir mais longe sem perder o controlo. É garantir que cada ferramenta serve um propósito claro e que os dados que a alimentam são os certos, fazendo com que as pessoas que a utilizam o façam com confiança. Assim, governar sistemas de IA não é algo que se faz uma vez, se arquiva e só se recupera para efeitos de uma auditoria.

Há três perguntas essenciais que qualquer organização deve saber responder: Que sistemas de IA estão em utilização? Com que dados? Com que finalidade? Quem souber responder já deu o primeiro passo. O resto é construção contínua.

E se a melhor forma de construir fosse recorrer à própria IA? As políticas e a documentação não precisam de permanecer em documentos raramente consultados. Com IA, transformam-se em assistentes virtuais que respondem em tempo real e em fluxos que as pessoas seguem naturalmente, muitas vezes sem se aperceberem de que estão a cumprir uma política. Um modelo de governo que não acrescenta fricção, mas que acompanha e evolui com a organização.

A regulação veio introduzir urgência para quem ainda acreditava ter tempo. O AI Act, ao contrário deste artigo, não é opcional. Trata‑se do regulamento europeu que classifica os sistemas de IA por níveis de risco e define, de forma clara, o que tem de ser controlado, documentado e reportado. Está já em vigor, sendo agosto de 2026 o prazo de referência para sistemas classificados como de alto risco, aqueles que influenciam decisões sobre pessoas, como a aprovação de crédito ou a subscrição de seguros. A ação relativamente a este tema torna-se, assim, urgente.

Com o governo consolidado, o foco passa para a adoção. Mudar a forma de trabalhar não é natural para todas as pessoas, e não tem de ser. A resistência perde força quando cada um descobre o que a IA faz pelo seu trabalho concreto. Não se ensina a ferramenta, mostra-se o que torna possível.

Note-se, portanto, que governo e adoção não são exercícios separados, na medida em que um promove controlo e o outro dá escala. Juntos, são a diferença entre experimentar e trabalhar com IA. Porque a questão nunca foi se a IA veio para ficar, mas se as organizações estão preparadas para a deixar trabalhar.

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