97% das famílias portuguesas reutiliza material escolar no Regresso às Aulas

Mochilas, material de escrita e calculadoras estão entre os artigos mais reaproveitados. Apesar da pressão sobre o orçamento, 81% considera as atividades extracurriculares importantes para os estudantes.

97% das famílias portuguesas reutiliza material escolar no Regresso às Aulas
regresso às aulas

Há um momento, algures entre o fim das férias e o início de setembro, em que as casas portuguesas se transformam em pequenas salas de triagem: mochilas que ainda resistem, estojos que só precisam de uma lavagem, calculadoras que continuam a funcionar e canetas que, afinal, ainda têm muito para escrever. Antes de comprar, muitas famílias estão a olhar para o que já têm. E quase todas estão a reutilizar.

De acordo com um estudo da ConsumerChoice, 97% dos consumidores portugueses reutiliza artigos do ano letivo anterior. A decisão é, em primeiro lugar, uma forma de aliviar o orçamento, mas revela também uma mudança mais profunda na relação das famílias com o consumo: nem tudo o que ficou do ano passado precisa de ser substituído apenas porque começa um novo ano letivo.

Mochilas, material de escrita e calculadoras aparecem empatados como os artigos mais reutilizados, todos com 68% das respostas. Os estojos surgem logo depois, com 63%. São objetos aparentemente pequenos, mas que, somados, podem representar uma diferença significativa na fatura que chega no final da preparação para setembro.

E há duas razões principais para este comportamento. Para 39% dos inquiridos, reutilizar é sobretudo uma questão económica. Outros 36% apontam o prolongamento da vida útil dos produtos. A poupança continua, portanto, a ser determinante, mas já não explica tudo. Há também a ideia, cada vez mais presente, de que comprar menos e aproveitar melhor aquilo que já existe pode ser uma escolha sensata.

Setembro começa antes de setembro

O regresso às aulas continua, apesar de tudo, a ser um ritual de compras. E ainda é sobretudo um ritual presencial.

Segundo a ConsumerChoice, 69% dos participantes prefere comprar o material escolar em lojas físicas, enquanto apenas uma pequena parcela opta exclusivamente pelo comércio online. Agosto concentra igualmente metade das compras, confirmando que, para muitas famílias, o novo ano letivo começa a ser preparado muito antes de as aulas começarem.

É uma espécie de contagem decrescente doméstica. Primeiro verifica-se o que sobrou. Depois faz-se a lista. Só então se vai às compras. E, pelo caminho, tenta-se perceber onde é possível poupar sem transformar o regresso às aulas numa sucessão de cortes.

Porque há despesas que as famílias estão mais dispostas a proteger.

O que fica de fora da tesoura

As atividades extracurriculares são um desses casos. Apesar da pressão sobre os orçamentos, 81% dos inquiridos considera-as importantes para os estudantes.

O desporto é a atividade mais valorizada, com 49% das respostas, seguido do apoio ao estudo, com 42%, e da música, com 35%. Os números sugerem que as famílias não veem necessariamente estas atividades como um luxo de que se pode prescindir quando o orçamento aperta. Para muitas, fazem parte da formação dos filhos.

Mas há um limite. Entre os consumidores que não inscrevem os filhos em atividades extracurriculares, 31% aponta o preço elevado como principal razão. É uma percentagem significativamente superior aos 16% que referem a falta de tempo ou a incompatibilidade de horários.

Ou seja, há vontade de manter estas atividades, mas nem sempre há margem financeira para o fazer.

“Este estudo mostra que as famílias não estão simplesmente a cortar despesas, estão a redefinir prioridades”, explica Nassrin Majid, Diretora-Geral da ConsumerChoice. Reutilizar materiais que continuam em boas condições é, diz, “uma escolha racional”, que junta poupança e consumo mais consciente.

Mas a responsável sublinha também que existem limites à contenção. Mesmo sob pressão, as famílias procuram preservar as atividades extracurriculares porque não as encaram como um custo acessório, mas como um investimento no desenvolvimento dos estudantes.

É talvez essa a fotografia mais interessante deste regresso às aulas: poupar, sim, mas não indiscriminadamente.

O medo de uma fatura maior

A preocupação não parece ser passageira. 86% dos entrevistados acredita que os custos associados ao regresso às aulas vão continuar a aumentar.

Perante essa expectativa, reutilizar uma mochila, prolongar a vida de um estojo ou aproveitar o material de escrita que ainda está em boas condições deixa de ser apenas uma questão de bom senso. Torna-se parte de uma estratégia familiar de gestão do orçamento.

E talvez seja aqui que o regresso às aulas esteja a mudar mais. Durante anos, setembro foi sinónimo de comprar novo: novos livros, novos cadernos, nova mochila, novo estojo, novas canetas. Hoje, para muitas famílias, a primeira pergunta parece ser outra: o que é que ainda podemos aproveitar?

O estudo da ConsumerChoice foi realizado junto de 718 portugueses, dos quais 54% são homens e 46% mulheres. A faixa etária dos 45 aos 54 anos representa 31% dos participantes, seguindo-se os 35 aos 44 anos, com 20%, e os 55 aos 64 anos, com 18%. Os jovens entre os 18 e os 25 anos representam 14% da amostra, os 25 aos 34 anos 9% e os maiores de 64 anos 8%.

Em termos geográficos, 36% dos participantes reside na Grande Lisboa, 21% na região Norte e 17% no Centro, estando os restantes distribuídos por outras zonas do país. A ConsumerChoice é responsável pela integridade e precisão dos dados obtidos.

No fundo, o regresso às aulas continua a trazer listas, mochilas e a inevitável corrida às lojas. Mas há uma diferença importante: antes de abrir a carteira, muitas famílias estão a abrir os armários.

E, num tempo em que os preços pesam cada vez mais, talvez a melhor compra seja, muitas vezes, aquela que se consegue adiar.

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