Filipe Morais, Professor de Governance & Reputation, Henley Business School, Reino Unido, e Partner na AMROP

Mais papistas que o Papa, mas só para inglês ver

A minha observação da realidade portuguesa leva a concluir que existe um deslumbre, uma tentativa esforçada de agradar, uma preocupação excessiva com a imagem, e não com a substância, relações e valores.

As últimas semanas têm sido marcadas pela controvérsia à volta do custo previsto com o altar-palco a construir por ocasião da Jornada Mundial da Juventude 2023. Já muito foi dito e escrito sobre as “formas” e os “tempos” da “decisão” de construir o altar-palco. A proporcionalidade, parcimónia, equilíbrio, congruência e transparência da decisão são altamente questionáveis.

Mas este não é caso único como também já sabemos: a forma como os decisores políticos e outros agentes decidem e utilizam dinheiros públicos preocupa. Estará impregnado na cultura portuguesa? Podemos mudar esta forma ligeira de fazer as coisas? Atentemos ao que escreve o próprio Santo Padre Francisco, na sua Encíclica Fratelli Tutti, no seu ponto 75 e que a todos nos deve fazer refletir.

“Habitualmente os «salteadores do caminho» têm, como aliados secretos, aqueles que «passam pelo caminho olhando para o outro lado». O círculo encerra-se entre aqueles que usam e enganam a sociedade para chupá-la, e aqueles que julgam manter a pureza na sua função crítica, mas ao mesmo tempo vivem desse sistema e seus recursos.

“Verifica-se uma triste hipocrisia, quando a impunidade do delito, o uso das instituições para interesses pessoais ou corporativos e outros males que não conseguimos banir, se associam a uma desqualificação permanente de tudo, à constante sementeira de suspeitas que gera desconfiança e perplexidade. Ao engano de que «tudo está mal» corresponde o dito «ninguém o pode consertar. Sendo assim, que posso fazer eu?»

“Deste modo, alimenta-se o desencanto e a falta de esperança; e isto não estimula um espírito de solidariedade e generosidade. Fazer um povo precipitar no desânimo é o epílogo dum perfeito círculo vicioso: assim procede a ditadura invisível dos verdadeiros interesses ocultos, que se apoderaram dos recursos e da capacidade de ter opinião e pensamento próprios”.

Os decisores em Portugal – não apenas políticos – ainda não acordaram para a realidade de que mais do que decisões eles fazem escolhas. A decisão implica obter informação (sempre imperfeita) e calcular um custo-benefício (também imperfeito, porque o benefício é incerto e depois não é distribuído de forma justa).

A decisão (escolha) foi justificada com o retorno económico que eventualmente poderá gerar. Mas o que as pessoas criticaram foi a escolha, num contexto de grandes dificuldades para muitas famílias portuguesas e de recursos escassos. A escolha implica o escrutínio de outros valores, que não apenas os económicos. A escolha feita não está alinhada com o contexto em que é exercida, com os valores que devem presidir à gestão da coisa pública, nem com os valores do próprio evento e da Igreja.

Então que princípios e valores presidiram à escolha, para além dos altamente incertos valores económicos? Cada ator envolvido deveria ter atuado fiel ao propósito da organização que representa. Creio que apenas o privado teve o comportamento esperado.

A minha observação da realidade portuguesa leva a concluir que existe um deslumbre, uma tentativa esforçada de agradar, uma preocupação excessiva com a imagem, com a aparência e não com a substância, com as relações, e com os valores.

Por exemplo, sempre me fez confusão como os principais partidos são europeístas convictos, procuram pontes e pactos na Europa, apelam a uma visão comum para além dos interesses de momento deste ou daquele Estado-membro. Cá dentro, fazem tudo o contrário. Por outras palavras, somos mais papistas que o Papa, mas só para inglês ver.

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