João Gonçalves Pereira, Administrador de Empresas

Vamos falar do nuclear?

Faz sentido o ressurgimento do debate quanto a este tema? Quanto a mim sim, mesmo que, como afirma Luís Mira Amaral, qualquer investimento nesta área tenha obrigatoriamente que ser feito a nível ibérico.

O urânio atingiu o valor mais elevado no mercado de ‘commodities’ desde a invasão da Ucrânia pela Rússia e as expectativas são de que o preço continue a aumentar nos tempos mais próximos, com o Bank of America a perspetivar os 70 dólares por libra (0,453 quilos).

Esta semana, o jornal “Financial Times” destacava a pressão crescente sobre o preço e as notícias que dão conta de uma mudança de comportamento por parte das empresas energéticas e mesmo dos sentimentos, incluindo na Europa, face à utilização do nuclear. A própria Alemanha, como destacam os especialistas, estará num ponto em que poderá vir a fazer uma inflexão histórica, não muito depois de ter mantido em stand by centrais nucleares que antes anunciava ir encerrar.

O aumento de cerca de 30% no valor do urânio acompanha a convicção de que ele será um ingrediente chave para uma Europa verde. Não produzindo emissões de carbono, a energia nuclear poderá ser central na passagem dos combustíveis fósseis para eletrificação da economia global desde que a União Europeia a classifique como energia verde.

Como dado relevante para a equação, a Rússia é, neste momento, o país que a nível global mais centrais nucleares tem em construção, e embora só represente 5% da produção mundial é responsável por mais de dois quintos da capacidade de enriquecimento, segundo dados da empresa de research Berenberg, também citados pelo “Financial Times”.

Em Portugal, as opiniões dividem-se entre os prós e os contras, mas a animosidade está, mesmo assim, muito longe da que existiu no distante ano de 1976 em Ferrel, quando foram travados por protestos os planos do governo de então para a construção da central.  “Ver televisão traz um aumento de radiação numa sala idêntico àquele que tem uma central nuclear na sua vizinhança. E, no entanto, não tem medo da televisão, pois não?”, argumentou sem sucesso na altura o ministro do I Governo Constitucional, Walter Rosa.

Hoje em dia, especialistas como Pedro Sampaio Nunes, ex-diretor de Novas Tecnologias e Energias Convencionais da Comissão Europeia, já afirmaram publicamente que “um mix de nuclear mais renováveis” poderia proporcionar a Portugal um dos preços de energia mais baixos do mundo, quando hoje, pelo contrário, temos o sétimo mais elevado”.

Faz sentido o ressurgimento do debate quanto a este tema? Quanto a mim sim, mesmo que, como afirma Luís Mira Amaral, qualquer investimento nesta área tenha obrigatoriamente que ser feito a nível ibérico, sabendo nós das dificuldades de diálogo recorrentes com o país vizinho no que toca à questão energética em geral e dos rios por nós partilhados em particular. Não tenho uma posição firme sobre o tema – nem a favor, nem contra – mas é seguramente uma questão que deve ser discutida.

 

 

Boa escolha a do presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar de S. João, Fernando Araújo, para o cargo de diretor-executivo do Serviço Nacional de Saúde. O seu nome chegou a ser um dos falados para a substituição de Marta Temido no Governo, da qual aliás foi sempre crítico. Veremos agora que impulso dará para o indispensável melhoramento do SNS.

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