A pandemia veio revolucionar a nossa maneira de estar e viver, mas também demonstrar a fragilidade da vida humana e de tudo o que temos como adquirido.
É altura de parar para analisar o que aconteceu nos últimos meses e prepararmo-nos para o que está para vir. Se durante os primeiros meses da pandemia, o pessoal da saúde não olhou a meios para manter o SNS a trabalhar e continuar a dar resposta às solicitações, tenho sérias dúvidas que consigamos responder do mesmo modo se nova onda idêntica ou maior nos assolar durante o outono/inverno.
Numa primeira fase, fomos apanhados desprevenidos e tivemos de improvisar, e como verdadeiros portugueses, fomos ótimos. Vários profissionais pagaram o seu próprio equipamento, deram horas aos serviços sem pedir nada em troca. Consultas, cirurgias e exames foram adiados, mas isso não significa que não estivéssemos a trabalhar, pelo contrário.
Na minha Unidade, na freguesia de Arazede, Montemor-o-Velho, continuámos a responder às solicitações por telefone e mail, fizemos consultas por telefone (embora nem todos os doentes as reconheçam como verdadeiras consultas) e, sempre que necessário, os doentes eram avaliados presencialmente; colaborámos nas escalas de ADC e fizemos o acompanhamento por telefone dos doentes sinalizados como suspeitos ou confirmados com infeção por Covid-19.
Para conseguirmos fazer tudo isto, muitos de nós abdicámos de estar com a nossa família nuclear durante meses. Uma decisão consciente, mas que certamente terá repercussões negativas a curto e médio prazo para os nossos filhos (“Mãe, porque é que não és como as outras mães que ficam em casa com os filhos? Quando crescer não quero ser médica, nunca tens tempo para brincar comigo.” – estes foram alguns comentários feitos pela minha filha de oito anos…).
Mas claro que nunca é suficiente, porque os nossos utentes e os nossos superiores querem sempre mais e nunca estão satisfeitos. Agem como se fôssemos máquinas apenas com deveres e zero direitos!
As pessoas não têm a noção da quantidade de solicitações. Estão sempre a reclamar que nunca atendemos o telefone, o que não é verdade. Fazemos o melhor que podemos, com o que temos, como seres humanos que somos, com as nossas vicissitudes e limitações. Convido algumas dessas vozes críticas a voluntariar-se para servir de telefonista numa qualquer Unidade de Saúde. O telefone não para de tocar o dia todo… E os pedidos de consulta e receituário multiplicam-se.
O trabalho burocrático que cai sobre os ombros dos Médicos de Família, nem sempre da sua exclusiva responsabilidade, também não ajuda, como a emissão de CIT (vulgo baixa, que poderiam ser emitidos nas consultas externas hospitalares), pedidos de consultas de seguimento que ficam por marcar, ou entre especialidades que podiam ser pedidas sem que os utentes tivessem de andar de instituição em instituição.
E agora o Ministério quer empurrar os utentes triados como azul e verde para os CSP, que estão cheios de recursos e pessoal disponível e sem nada para fazer (nada disso!). E impor que os Médicos de Família deem apoio aos lares, como se de enfermarias se tratassem, em detrimento de todas as outras atividades que são as suas verdadeiras competências.
Confesso que, embora me considere uma otimista por natureza, acho que este outono/inverno não vai correr nada bem. Tenho sérias dúvidas de que pessoas que já estão a trabalhar no limite aguentem um novo embate.
Não sei como vamos conseguir gerir as consultas programadas em doentes crónicos, consultas de vigilância de saúde infantil e juvenil (SIJ), Planeamento Familiar (PF), Saúde Materna (SM) e as solicitações de consultas por doença aguda não respiratória, a par com as doenças agudas respiratórias, mantendo circuitos independentes.
As Unidades não estão preparadas, mas as obras continuam por fazer, os sistemas de climatização continuam sem funcionar, o pessoal continua a ser insuficiente e o material continua a faltar. Será que somos mesmo obrigados a trabalhar sem condições de segurança? Será que vale mesmo tudo?