A saúde e o crescimento económico

Precisamos de parcerias estratégicas indústria-indústria e indústria-universidade que melhorem substancialmente a nossa capacidade de inovação e desenvolvimento.

A saúde e o crescimento económico
Antonio Donato Web

A indústria farmacêutica apresenta enormes benefícios para a saúde pública porque salva vidas, aumenta a esperança de vida, reduz o sofrimento e diminui o recurso a outras intervenções em saúde.

São dados incontornáveis, particularmente relevados quando todos esperamos o desenvolvimento de uma vacina, ou um tratamento, que nos permita voltar a viver segundo critérios de segurança adequados.

Apesar da importância desse sector para o futuro da União Europeia, poucas vezes ultrapassamos esta dimensão da análise e nos focamos na importância deste sector como fonte de crescimento e competitividade para a economia europeia.

Embora alicerçados em resultados nem sempre coincidentes, a evidência empírica, através de uma análise transversal de dados internacionais, tem sustentado que o aumento dos gastos em saúde tem um efeito positivo e estatisticamente significativo no crescimento económico. A Comissão Europeia (2005) produziu um importante relatório sobre este impacto, defendendo um maior investimento na saúde como forma de promover o crescimento do PIB.

Intuitivamente, será amplamente aceite que populações com níveis mais elevados de riqueza serão mais saudáveis e terão uma esperança de vida mais longa, como resultado de uma maior efectividade da prevenção e tratamento das doenças. Indivíduos mais saudáveis ocupam melhor o tempo e recursos, e aumentam a produtividade. Podíamos mesmo admitir ciclos virtuosos de relação entre saúde e riqueza, que permitiriam estimular o desenvolvimento dos países mais pobres e manter o crescimento nos países mais ricos.

Todavia, muitas questões continuam por responder acerca desta relação entre saúde e crescimento económico. Por exemplo, as consequências são diferentes se o aumento da esperança média de vida não resultar num aumento da população activa, durante os longos períodos estudados há alterações nas causas de doença e de morte e é difícil relacionar esta “transição epidemiológica” com o crescimento da riqueza, causas de morte que têm impacto no crescimento do PIB per capita em países ricos podem não ter em países pobres, etc..

Se esta relação é alvo de uma vasta publicação académica, há um dado que é mais tangível, o do impacto que a indústria farmacêutica tem na riqueza dos países.

Em Portugal, cerca de 10 mil pessoas são empregadas por empresas farmacêuticas, aumentando estes números para cerca de 40 mil se incluirmos o transporte e comércio de produtos farmacêuticos, totalizando 100 mil empregos criados na economia global pela indústria farmacêutica, incluindo fornecedores e outros efeitos indirectos, bem como o efeito induzido pelos salários das pessoas que trabalham indústria farmacêutica e na sua cadeia de valor.

Num programa de revitalização económica, sabendo que existem limites para injecções de dinheiro na economia, sob pena de agravar o risco em países já com elevados rácios da dívida e com necessidades brutas de financiamento significativas, seremos forçados a definir quais são os investimentos mais eficientes.

A indústria farmacêutica tem o potencial para, num contexto de crise sanitária e económica, impulsionar a competitividade e o crescimento da UE. De acordo com os dados do EUROSTAT, a indústria farmacêutica é o sector com o maior valor adicionado por pessoa empregada, significativamente superior ao valor médio de outras indústrias de alta tecnologia. Usando dados da PwC relativos a 2016, o “Value Added per Employee” da indústria farmacêutica, de 156.000 euros, compara com os 85.000 euros da indústria automóvel ou os 102.000 euros da aeroespacial. É também o sector com a maior proporção de investimentos em investigação e desenvolvimento relativamente às suas vendas líquidas.

A corrida pela descoberta de uma vacina, embora muito importante, não pode constituir-se como o único desafio que temos pela frente. Esta corrida tem características mais vastas, o sucesso no investimento em ciências da vida é um empreendimento global de longo curso.

Conhecemos, todavia, o ponto de partida: os EUA têm quase tantas empresas farmacêuticas e de biotecnologia como toda a Europa, Ásia e Pacífico, juntos. Há dados que demonstram que as exportações de produtos farmacêuticos da UE são influenciadas pela dimensão do sector saúde de cada Estado-membro.

Muito se tem falado em políticas públicas de relançamento económico, trazendo à memória o longínquo relatório Porter, onde o autor recomendava que “o governo deve criar o ambiente certo, no qual as empresas possam competir e melhorar”. O que significa isto para a indústria farmacêutica nacional? Que precisamos de clusters tecnológicos e de dimensão suficiente, que combatam a atomização de conhecimento e de recursos que são entraves a ganhos de produtividade.

É crucial a fertilização cruzada entre universidades e empresas, suportadas por programas e entidades que agilizem estas relações. A indústria farmacêutica necessita de capital humano, inteligência e conhecimento. O investimento na educação, na saúde e em políticas públicas que juntem academia e indústria serão catalisadores fundamentais para o nosso crescimento. Precisamos de parcerias estratégicas indústria-indústria e indústria-universidade que melhorem substancialmente a nossa capacidade de inovação e desenvolvimento.

Não estamos num tempo normal, e “nova normalidade” é um eufemismo para mitigar o impacto da incerteza. Nestes momentos em que os recursos económicos estão mais limitados e somos assolados pelo desconhecido, não só veremos esse reflexo no consumo, como gastos ineficientes e investimentos errados não só serão facilmente identificáveis como não serão socialmente aceites.

O mesmo Michael Porter afirmava que “não é o que o país produz, mas quão sofisticado e produtivo é esse país a fazer o que faz”. Mais de 25 anos depois permanece o desafio, e a indústria farmacêutica está disponível para dar resposta ao país.