Autárquicas e Rio, teste final

Rui Rio joga nas autárquicas deste ano o seu seguro de vida enquanto político e a permanência à frente dos destinos do PSD. Cabe-lhe ganhar câmaras importantes para manter o fôlego até às próximas legislativas

Autárquicas e Rio, teste final
Vitor Norinha_final

1. A apresentação dos principais candidatos autárquicos do PSD por parte de Rui Rio revela a falta de confiança que o atual líder social-democrata tem nas suas próprias escolhas.

Na maior parte dos casos e à exceção de Lisboa – onde Carlos Moedas é um candidato fortíssimo –, Rui Rio apresenta segundas e terceiras linhas, perfeitos desconhecidos, assim como pretende recuperar velhas glórias falhadas do partido em algumas edilidades, nomeadamente na Figueira da Foz e Vila Nova de Gaia, entre outras.

A expressão que se ouve entre os candidatos é se são “apaziguadores”, o que revela turbulência entre sociais-democratas e demonstra que a escolha de nomes é uma forma de “pacificação”. Em suma, o que se sabe é mau e o que está para vir poderá ser pior.

Rui Rio joga nas autárquicas deste ano o seu seguro de vida enquanto político e a permanência à frente dos destinos do PSD. Cabe-lhe ganhar Câmaras importantes e isso, a acontecer, dar-lhe-á folga para se aguentar até às próximas legislativas. Mas se perder Lisboa, Porto, Coimbra e outras edilidades relevantes será acossado pela oposição interna, e nem vale a pena contar com os candidatos “apaziguadores”.

Ora, há um ciclo de cinco anos de governação socialista e há um novo ciclo, e há também uma renovação a caminho no PS com a luta entre a fação moderada e a fação radical pela sucessão de António Costa. Tudo isto seriam oportunidades para o líder social-democrata se quisesse estar na linha da frente para chegar a primeiro-ministro, o que parece cada vez mais difícil de acontecer.

Rio não capitalizou com o desgaste da governação socialista no primeiro mandato de Costa; não capitalizou com os efeitos da pandemia e o descontentamento da gestão socialista em 2020; não capitalizou com o afastamento do “desejado” Pedro Passos Coelho – que prefere, para já, estar fora da política ativa; não capitalizou com a inconstância da IL; e não capitalizou com a antipatia que o partido dirigido por André Ventura ainda gera em alguns setores da sociedade.

E resta a pergunta: como é que Rio pretende capitalizar e inverter a tendência negativa do PSD?

2. Um estudo recente do site Idealista sobre o esforço necessário para a compra da habitação permanente relembra que estamos a passar por tempos difíceis, possivelmente dos mais difíceis nos últimos 30 anos, sendo que não abundam as facilidades.

O trabalho é deveras interessante e faz um comparativo entre os preços médios por distrito e as várias tipologias de habitação, e ainda a necessidade mínima de capitais próprios.

O tema do direito à habitação ganha relevância quando se está perante jovens em início de carreira, sem ajudas parentais e que precisam, em termos médios, de ter mais de 40 mil euros para dar de entrada para um T0 em Lisboa e depois conseguirem não atingir a taxa de esforço recomendada pelos bancos, sob pena do pedido ser chumbado ab initio.

Nas principais cidades é necessário ter entre 20 mil e 40 mil euros para dar de entrada, e depois ter capacidade para que o banco lhes empreste a maturidades longas entre 80% e 90% do restante capital. E, frisamos nós, naquele montante não estão incluídas despesas administrativas no banco e no cartório.

É um desafio hercúleo para os jovens de hoje e que o Estado deveria facilitar mas não facilita.