Água de Castelo de Bode é hipótese para abastecer Almada

A hipótese foi avançada esta terça-feira pela ministra do Ambiente que defende que o concelho precisa de ter redundância no abastecimento, juntando a água de Castelo de Bode ao aquífero do distrito de Setúbal, a atual fonte de fornecimento.

Água de Castelo de Bode é hipótese para abastecer Almada
Maria da graça carvalho – ministra do ambiente

A água captada em Castelo de Bode, distrito de Santarém, já abastece Lisboa e pode vir a ser hipótese para abastecer o concelho de Almada, que tem sofrido na última semana com falta de água.

A hipótese foi avançada esta terça-feira pela ministra do Ambiente que defende que o concelho precisa de ter redundância no abastecimento, juntando a água de Castelo de Bode ao aquífero do distrito de Setúbal, a atual fonte de fornecimento.

“A EPAL irá estudar e vamos reunir com os municípios [do distrito de Setúbal] para saber também a opinião deles, porque isto pressupõe que eles se unam, pelo menos em alta [captação de água], e haja aqui uma gestão, por exemplo, da EPAL, para que haja uma transferência de água que vem de Castelo de Bode, que alimenta a margem norte do Tejo e que faça também a alimentação da margem sul. E aí ficam com duas alternativas, o aquífero e a água de Castelo de Bode”, disse esta quarta-feira Maria da Graça Carvalho.

A ministra anunciou hoje que vai reunir-se com autarcas do distrito de Setúbal para perceber a sensibilidade para adotarem fornecimento de Castelo de Bode, como complementar ao aquífero Tejo – Sado.

Mas isto é no médio prazo. No curto prazo, está previsto um novo furo a alimentar Almada com origem no concelho do Seixal, tendo já outro furo arrancado no sábado, também com origem no Seixal.

“Tomámos esta iniciativa de propor um novo sistema de abastecimento de toda a margem esquerda do Tejo”, conhecida por Margem Sul e que é abastecida pelo aquífero Tejo-Sado.
A ministra previu que a situação esteja completamente restabelecida “daqui a três semanas”, acrescentando que um dos furos colapsou em agosto e que não foi recuperado por uma “dificuldade de relacionamento com o Seixal. Isso ficou neste momento resolvido, o Seixal está muito cooperante, assim como está Sesimbra, que também está a ajudar a fornecer água às povoações vizinhas do concelho de Almada”.

A ministra também disse que “Almada tem aumentado de população e aumenta muito no verão e, como é óbvio nos dados do regulador ERSAR não têm sido feitos os investimentos que a ERSAR considera adequados e a renovação que se considera adequada da rede de distribuição”, com um rácio de recuperação de 0,3% face aos 1,5% considerados “adequados” pelo regulador.

Para o futuro, “haverá com certeza mais investimento, aliás porque o SEMAS tem financiamento através das tarifas, mesmo quando não recorre a fundos europeus e, portanto, para regularizar e modernizar a sua rede, porque a rede tem muitas perdas, é uma das maiores do país, são cerca de 35%, enquanto que a média é cerca de 26%”.

” É preciso haver uma redundância e é uma zona que está a crescer muito, em proporção à economia, empresas, agricultura, há uma grande atração na economia e que traz tantas pessoas para aquela zona, portanto, precisamos de ter uma alternativa ao aquífero”, concluiu.

Moradores do concelho de Almada à beira de um ataque de nervos com falta de água

O concelho de Almada tem sido assolado gravemente pela falta de água, com a autarquia a justificar a escassez pelo disparo no consumo de água.

A falta de água tem afetado o dia-a-dia dos residentes do concelho, tal como o de João Garrido: “Hoje, em minha casa, abri uma torneira e a água simplesmente deixou de correr. Não foi um episódio isolado. No concelho de Almada, a falta de água deixou de ser uma ocorrência pontual e passou a fazer parte do quotidiano de muitos munícipes. Todos os dias surgem novos relatos, novas queixas e novas notícias. A situação tornou-se insustentável. Em dias de calor intenso, numa altura em que o acesso à água é ainda mais crítico, esta realidade é absolutamente inaceitável”, escreveu o munícipe nas redes sociais, deixando críticas aos argumentos da autarquia.

O empresário destacou que o consumo fatura em Almada variou entre 175 e 184 litros diários por habitante, próximo da referência nacional de 180 litros.

Em 2024, a água captada por residente atingiu os 269 litros por dia, com a água fatura a cair para 179 litros por dia: uma diferença de 90 litros por residente e por dia.

“Onde ficam os cerca de 6 milhões de m³ de água captados anualmente, mas não faturados”, questionou João Garrido que pede explicações à autarquia de Almada: “Cabe agora à Presidência da Câmara Municipal de Almada explicar à população como foi planeado, mantido e preparado um serviço público tão essencial como o abastecimento de água”.

“Oss próprios serviços estão a admitir que o sistema não está dimensionado para responder às necessidades reais do concelho. Isto não é apenas um problema técnico. É uma falha de planeamento, de gestão, de investimento, de manutenção e de responsabilidade política. O acesso à água não é um luxo. Não é um serviço acessório. Não é uma comodidade que possa falhar diariamente sem consequências. É um bem essencial, ligado à saúde pública, à dignidade das pessoas, à segurança das famílias, ao funcionamento das empresas e à vida normal de uma comunidade”.

Também o jornalista Miguel Szymanski deixou críticas à autarquia. “Estamos há semanas com falta de água na Costa da Caparica. O problema tem-se agravado, de ano para ano. As explicações da empresa/serviço municipal responsável são tardias e patéticas. A falta de água na rede pública é uma consequência da falta de planeamento e de noção das prioridades: construir uma estação de dessalinização de água do mar para abastecer as populações da Trafaria, Costa da Caparica, Sobreda etc. (no Algarve está uma grande central em construção) terá aproximadamente o custo das obras de ampliação do IC20/Via Rápida feitas ao longo de oito km entre Almada e a Costa da Caparica e terminadas no ano passado”.

“O projeto duma central de dessalinização deveria ter sido aprovado há três anos, quando os problemas começaram a agudizar-se. E poderia estar a funcionar hoje. Quanto ao local onde ir buscar a água do mar para dessalinizar, tenho uma sugestão que gostaria de passar aos responsáveis políticos: que tal o Oceano Atlântico aqui mesmo à porta de casa?”, segundo o também comentador e escritor residente neste concelho da Margem Sul do Tejo.

A autarquia de Almada decretou esta semana a situação de alerta no município, reforçando as medidas em curso para “garantir o abastecimento à população e aos serviços essenciais”.

Os Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Almada (SMAS de Almada) disseram esta quarta-feira que a “situação que o concelho enfrenta é excecional e resulta de um aumento muito significativo do consumo de água, que exerceu uma pressão sem precedentes sobre o sistema de abastecimento. Neste momento, é fundamental reduzir rapidamente os consumos para permitir a recuperação dos níveis de segurança dos reservatórios e garantir a continuidade do abastecimento”.

O SMAS disse que o consumo médio em Almada ultrapassa os 300 litros por habitante/dia, enquanto a média nacional é de cerca de 180 litros por habitante/dia. E que até junho de 2026, o consumo aumentou, em média, 4,3% no concelho, com os maiores aumentos nas freguesias: Charneca de Caparica: +15,2%; Sobreda/Lazarim: +15%; Costa da Caparica: +14,2%.

Por sua vez, o município de Almada anunciou que estão assim “proibidas todas as utilizações de água da rede pública que não correspondam a usos domésticos ou essenciais”, como:

· a rega de jardins público e privados, e de campos de golf;

· a lavagem de viaturas;

· o enchimento de piscinas;

· a utilização de chuveiros e lava-pés nas zonas balneares;

· o funcionamento das fontes ornamentais, lagos artificiais e outros elementos de uso estético de água;

· a lavagem de pavimentos exteriores, logradouros, paredes e telhados, com exceção de intervenções de conservação do edificado;

· outras utilizações recreativas ou não indispensáveis.

A autarquia anunciou várias medidas, incluindo o “reforço permanente da monitorização do sistema de abastecimento e dos níveis dos reservatórios; reforço das equipas técnicas para deteção e reparação urgente de fugas e roturas; reforço das equipas de fiscalização para prevenir consumos abusivos, utilizações ilegais de água e desperdícios; garantia do abastecimento aos equipamentos e serviços essenciais, nomeadamente hospitais, centros de saúde, lares, bombeiros e restantes infraestruturas críticas; disponibilização de meios alternativos de abastecimento, incluindo camiões-cisterna, nas zonas onde tal venha a revelar-se necessário; reforço da articulação com municípios vizinhos e restantes entidades competentes para assegurar toda a capacidade de resposta disponível”.

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