Investimento em tecnológicas por fundos de Private Equity registou queda anual de 70% no primeiro trimestre de 2026

O Private Equity enfrenta um novo bloqueio em 2026: o investimento tecnológico cai 70% e o ciclo de capital. O relatório aponta que o ciclo implícito de recuperação e redistribuição de capital no setor se prolongou para cerca de sete anos, um valor significativamente acima dos níveis históricos que reflete o aumento de ativos retidos em carteira.

Investimento em tecnológicas por fundos de Private Equity registou queda anual de 70% no primeiro trimestre de 2026
Bain & Company

O investimento em empresas tecnológicas por fundos de Private Equity (PE) registou uma queda abrupta de 70% entre o último trimestre de 2025 e o primeiro trimestre de 2026. A conclusão é do Private Equity Midyear Report 2026 da Bain & Company, que aponta ainda para uma desaceleração do investimento, saídas abaixo do esperado e maior pressão sobre a captação de fundos.

A falta de liquidez e novos choques de mercado continuam a travar a recuperação do setor, segundo conclui o Private Equity Midyear Report 2026 da consultora Bain & Company. Após um início de ano marcado por algum otimismo, a atividade voltou a desacelerar perante a incerteza em torno da disrupção provocada pela inteligência artificial (IA) no mercado de software, as pressões no crédito privado e a instabilidade geopolítica global.

De acordo com o relatório, o valor global das operações de buyout no setor tecnológico afundou de 65 mil milhões de dólares no quarto trimestre de 2025 para 20 mil milhões de dólares no primeiro trimestre deste ano.

A ausência de consenso entre os investidores sobre o impacto da inteligência artificial nos modelos de negócio tradicionais de software está a dificultar a avaliação de ativos e a paralisar operações de maior dimensão, defende a Bain.

No mesmo período, as avaliações de empresas de software detidas por fundos de PE recuaram cerca de 8% a nível global, embora o mercado europeu tenha demonstrado maior resiliência, registando uma quebra de 4,2% face à contração de 8,9% verificada no mercado norte-americano.

A matemática financeira do setor tornou-se significativamente mais complexa e exigente. A Bain & Company estima que uma operação que há dez anos necessitava de gerar cerca de 5% de crescimento anual do EBITDA para atingir um retorno de 2,5 vezes o capital investido, exige atualmente entre 10% e 12% de crescimento operacional.

A combinação de custos de financiamento mais elevados e múltiplos de aquisição ainda altos está a aumentar a pressão sobre a criação de valor e a obrigar os investidores a serem mais seletivos. Álvaro Pires, partner da Bain & Company, afirma que a indústria já não pode contar com a expansão das avaliações para gerar retornos e que, num contexto de financiamento mais caro e menor liquidez, a criação de valor operacional tornou-se decisiva para o sucesso dos investimentos.

“A indústria já não pode contar com a expansão das avaliações para gerar retornos. Num contexto de financiamento mais caro e menor liquidez, a criação de valor operacional tornou-se decisiva para o sucesso dos investimentos”, afirma Álvaro Pires.

Embora os mercados continuem funcionais e exista capital disponível para investir, a verdadeira barreira reside na dificuldade em concretizar saídas e devolver o dinheiro aos investidores institucionais, explica a consultora.

Ciclo de capital prolonga-se para sete anos

A Bain estima que o ciclo implícito de recuperação e redistribuição de capital no setor se tenha prolongado para cerca de sete anos, significativamente acima dos níveis históricos. O fenómeno reflete o aumento do número de ativos retidos em carteira e a lentidão na devolução de capital aos investidores.

Como consequência direta desta pressão sobre a liquidez e de expectativas de retorno mais moderadas, cerca de 20% dos investidores institucionais afirmam estar já a reduzir a sua exposição a fundos de buyout. Em paralelo, a captação de novos fundos continua sob pressão, com os investidores a exigirem maior disciplina na alocação de capital.

Perante este cenário de incerteza, a consultora destaca três prioridades estratégicas para os fundos de Private Equity, que passam por reforçar a criação de valor operacional, acelerar a adoção da inteligência artificial como motor de eficiência e focar os recursos estritamente nos ativos com maior potencial de valorização.

Álvaro Pires conclui que, num mercado em que os recursos são escassos, os investidores terão de ser muito mais seletivos, direcionando o foco para os ativos com capacidade de transformação, inclusive através da inteligência artificial.

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