Escalada do conflito no Médio Oriente projeta petróleo nos 180 dólares

Novos ataques dos Estados Unidos ao Irão fizeram o petróleo subir mais de 6%, no fecho dos mercados europeus, na segunda-feira. As bolsas europeias reagiram negativamente por serem "mais vulneráveis" a um choque energético, destacou a BA&N. O ouro caiu, o cobre subiu, e o dólar valorizou com a situação no Médio Oriente.

Escalada do conflito no Médio Oriente projeta petróleo nos 180 dólares
Reuters

O barril de petróleo voltou a sofrer uma nova subida no preço, na segunda-feira, com o reporte de novos ataques norte-americanos ao Irão, no fim-de-semana. O reporte de que os iranianos deixaram de negociar diretamente com os Estados Unidos devido aos ataques israelitas ao Líbano, na segunda-feira, propulsionou ainda mais a valorização do petróleo. No fecho dos mercados europeus o brent avançava 6,22% para os 96,79 dólares e o crude subia 7,07% para os 93,54 dólares.

No fim-de-semana os Estados Unidos referiram que atacaram defesas aéreas iranianas, uma estação de controlo terrestre e dois drones que ameaçavam navios após “ações agressivas iranianas”, incluindo o abate de um drone norte-americano em águas internacionais. Já a Guarda Revolucionária Islâmica do Irão disse que tinha atacado uma base aérea utilizada pelos Estados Unidos em resposta aos ataques.

A agência noticiosa iraniana Tasnim tinha referido que os iranianos interromperam as negociações diretas com os Estados Unidos depois de Israel ter ordenado, na segunda-feira, ataques ao Líbano. A televisão estatal iraniana avançava, citada pela Reuters, que o cessar-fogo poderia terminar se os ataques israelitas contra o Hezbollah no Líbano continuassem.

Do lado norte-americano o presidente, Donald Trump, depois dos ataques do fim-de-semana, tinha referido que o Irão queria chegar a acordo. Mas o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araqchi, referiu que a situação no Líbano, onde está em vigor outro cessar-fogo, é um obstáculo. “Uma violação numa frente é uma violação do cessar-fogo em todas as frentes. Os EUA e Israel são responsáveis ​​pelas consequências de qualquer violação”, disse à agência X, em declarações transcritas pela Reuters.

Petróleo pode chegar aos 180 dólares

Esta nova escalada no conflito no Médio Oriente já levou ao emitir de um alarme, na segunda-feira, por parte da Rystad Energy. Esta avisa que o petróleo, caso não exista acordo e se recomece o combate no Médio Oriente, pode chegar aos 180 dólares, em agosto.

“Isso significaria uma grave recessão económica global, principalmente na Europa e nos países emergentes da Ásia”, defendeu o chefe de análise geopolítica da Rystad Energy, Jorge León, no programa da CNBC ‘Squawk Box Europe’.

Mas foi traçado também um cenário mais otimista. “Os Estados Unidos e o Irão chegam a acordo sobre tudo, incluindo a questão nuclear e a reabertura do Estreito de Ormuz [local por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial]. Nesse caso, os preços cairiam rapidamente para cerca de 70 dólares por barril até ao final do ano”, disse Jorge León.

Retirando da equação as previsões da Rystad Energy a alta do petróleo, na segunda-feira, depois de ter fechado maio com a maior queda desde 2020 (-19%), “condicionou a evolução das ações europeias”, por serem “mais vulneráveis” a um choque energético”, destacou a BA&N.

Entre os principais índices europeus, no fecho da sessão bolsista de segunda-feira, o DAX (Alemanha) caiu 0,44% para os 24.994,13 pontos, o CAC 40 (França) desceu 0,45% para os 8.146,59 pontos, e o FTSE 100 (Reino Unido) quebrou 0,68% para os 10.338,95 pontos.

O AEX (Países Baixos) subiu 0,11% para os 1.036,02 pontos, o IBEX 35 (Espanha) desceu 1,18% para os 18.145,60 pontos, o FTSE MIB (Itália) caiu 0,52% para os 49.775,16 pontos, e o PSI (Portugal) deslizou 1,27% para os 8.960,94 pontos.

Cobre sobe com possível clarificação tarifária sobre o cobre até final do mês

O cobre foi outra matéria-prima também afetada pelos desenvolvimentos no Médio Oriente. No fecho dos mercados europeus o cobre subia 2,60% para os 6,55 dólares por tonelada, na bolsa norte-americana, e na bolsa londrina a matéria-prima caía 0,48% para os 13.636 dólares por tonelada no preço a três meses. Esta pressão [no preço na bolsa norte-americana], de acordo com a agência noticiosa Bloomberg, deve-se à possível clarificação, que deve ocorrer até ao final de junho, relativamente às tarifas sobre as importações deste metal para os Estados Unidos.

Isto fez com que o Goldman Sachs subisse a sua previsão do preço do cobre, que é negociado na bolsa londrina, de 12.465 dólares por tonelada para os 13.735 dólares por tonelada até ao final de 2026 e revisse o seu preço projetado para 2027 de 12.150 dólares por tonelada para os 13.800 dólares por tonelada.

Nessa nota, transcrita pela BigGo Finance, o Goldman Sachs salienta que um défice de oferta superior, ao anteriormente projetado, explica esta revisão no preço. O banco prevê que o défice de oferta para mercados fora dos Estados Unidos fique em 640 mil toneladas em 2026 e em 170 mil toneladas em 2027, face à anterior projeção de um défice de 60 mil toneladas e 40 mil toneladas para os mesmos anos.

A acumulação de stock de cobre por parte dos Estados Unidos é outro fator que levou o banco a rever a sua projeção. A instituição subiu a acumulação de stock norte-americano de 550 mil toneladas para 900 mil toneladas, devido à possibilidade do Governo dos Estados Unidos poder colocar tarifas sobre a importação de cobre, incentivando desta maneira as empresas a acumularem stocks sob risco de pagarem um preço mais elevado pela importação de cobre caso o Governo norte-americano decida aumentar as tarifas.

O lado da oferta está também sob pressão, salienta a nota da instituição bancária. Em causa a importância mundial da mina de cobre de Grasberg, na Indonésia, e da mina de cobre de Kamoa-Kakula, na República Democrática do Congo, que ainda não retomaram a operação depois dos incidentes ocorridos em 2025. A que se juntam avaliações de que estas minas não devem regressar aos níveis normais de produção antes de 2028. Isto levou a que o Goldman Sachs revisse em baixa a oferta global do cobre em 350 mil toneladas.

O banco calcula que, até 2030, o aumento da procura de cobre proveniente das redes elétricas e das infraestruturas energéticas represente mais de 60% do crescimento total da procura. Esta procura, ajudada pela segurança energética, pela expansão dos centros de dados de inteligência artificial (IA) e pelos projetos de defesa, deve ser “menos sensível” aos ciclos económicos do que os setores tradicionais consumidores de cobre.

Ouro cai com agravar do conflito entre Estados Unidos e Irão

Em sentido contrário esteve o ouro. O metal negociou em baixa. No fecho dos mercados europeus o metal caía 2,03% para os 4.499,75 dólares por onça. E o dólar? O índice que segue o dólar, e o compara com outras moedas, valorizava 0,36%.

“O ouro esteve sob pressão após um fim de semana marcado pelo esbatimento de algum do otimismo em torno das negociações entre os Estados Unidos e o Irão destinadas a pôr fim ao conflito e a reabrir o Estreito de Ormuz. Como resultado, os preços da energia recuperaram, com o Brent a subir 3% [fechando com uma valorização de 6,22% no fecho dos mercados europeus] face ao fecho de sexta-feira. Este movimento reacendeu receios inflacionistas e reforçou as expectativas de que a Reserva Federal norte-americana (Fed) mantenha uma postura hawkish [política monetária agressiva]. Esta dinâmica fortaleceu a procura pelo dólar norte-americano, criando um fator adverso para o ouro devido à correlação inversa entre os dois ativos”, dizia o CEO da ActivTrades Europe, Ricardo Evangelista, na segunda-feira.

“O metal precioso sofreu uma correção em baixa, aproximando-se do nível dos 4.500 dólares, à medida que os investidores realizaram lucros e voltaram a sua atenção para os desenvolvimentos mais amplos do mercado. A retração ocorreu mesmo com as tensões no Médio Oriente ainda elevadas, sugerindo que a procura por ativos de refúgio tinha diminuído ligeiramente durante a sessão”, considerou a plataforma digital Invezz.

O analista de mercado da Trade Nation, David Morrison, referiu que os investidores “continuam cautelosos” enquanto as negociações entre os EUA e o Irão continuam, disse numa nota transcrita pela publicação financeira Investing. “Embora as discussões diplomáticas permaneçam ativas, grandes divergências sobre o programa nuclear iraniano e o futuro do Estreito de Ormuz continuam a gerar incertezas”, acrescentou.

“De um modo geral, os mercados cambiais mantiveram-se moderados, com os investidores a ponderarem os riscos geopolíticos em relação aos dados económicos futuros e a aguardarem novos sinais tanto sobre a economia dos Estados Unidos como sobre os desenvolvimentos no Médio Oriente”, referiu a Invezz sobre os mercados cambiais.

Mercado foca-se em dados macroeconómicos

A diretora de investigação da XTB, Kathleen Brooks, disse na segunda-feira, citada pela agência noticiosa Reuters, que apesar dos ataques entre Estados Unidos e Irão, no fim-de-semana, o mercado “mantém-se firme na convicção” de que as negociações estão em curso e que um acordo entre o Irão e os Estados Unidos para pôr fim à guerra no Médio Oriente e reabrir o Estreito de Ormuz “ainda será alcançado”.

Kathleen Brooks acrescentou que com a “atenção focada numa série de divulgações macroeconómicas no final desta semana, os investidores terão de observar como isto se desenrolará, e qualquer atraso na obtenção de um acordo poderá afetar o sentimento do mercado”.

O economista-chefe para a Europa da Jefferies, Mohit Kumar, também citado pela Reuters, disse que o mercado precisa de um acordo para abrir o Estreito de Ormuz, para “proporcionar a próxima subida das ações e a descida das taxas de juro”, acrescentando que à medida que entramos em junho, o foco “vai virar-se” para as reuniões dos bancos centrais nas próximas semanas.

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