O mundo já não vive sem carros elétricos, smartphones ou inteligência artificial. Mas, para isso, necessita de extrair minerais críticos como lítio e cobalto, essenciais à energia “verde” e às transições digitais que permitem cumprir metas climáticas.
No entanto, se, por um lado, descarbonizam, por outro criam crises ambientais e de saúde graves que o mundo não consegue resolver, alerta o relatório “Critical Minerals, Water Insecurity and Injustice”, do United Nations University Institute for Water, Environment and Health (UNU-INWEH), o think tank da Organização das Nações Unidas (ONU) para assuntos hídricos.
O documento identifica um “paradoxo da transição”: o esforço para reduzir emissões pode intensificar desigualdades ambientais e sociais. Sem controlo, estas matérias-primas podem tornar-se o “petróleo do século XXI”.
O Acordo de Paris torna urgente a extração de minerais críticos para reduzir a intensidade carbónica das atividades humanas. No entanto, isso cria um novo paradoxo: atingir as metas climáticas globais exigirá um aumento de nove vezes na procura por lítio e a duplicação da necessidade de cobalto e níquel até 2040.
“Sem mecanismos de controlo eficazes, as próprias metas criadas para proteger o planeta podem acelerar crises hídricas, de saúde e de injustiça nas comunidades menos responsáveis pelas alterações climáticas”, afirma o prof. Madani, recentemente nomeado vencedor do Prémio da Água de Estocolmo de 2026.
O relatório destaca a elevada procura de água associada à extração de minerais críticos. As comunidades mais próximas das operações mineiras são as que pagam o preço mais elevado: água contaminada, escassez hídrica, perda de meios de subsistência e graves consequências para a saúde.
Ainda assim, o relatório não questiona a necessidade de sistemas de energia limpa nem da infraestrutura digital que os sustenta. Questiona, sim, quem paga e quem beneficia deste progresso — e encontra uma resposta profundamente injusta.
“As ruturas tecnológicas são necessárias e úteis. Mas devemos estar conscientes e abordar proativamente as suas consequências não intencionais, se quisermos que o mundo beneficie delas de forma igualitária”, afirma Kaveh Madani, diretor da UNU-INWEH, que liderou a investigação. “Não se pode chamar verde, sustentável e justa a uma transição que apenas transfere o dano ambiental dos ricos para os pobres, ou de uma região para outra.”
Produções globais
Segundo o relatório, em 2024, a produção global de lítio — cerca de 240 mil toneladas — consumiu aproximadamente 456 mil milhões de litros de água, o equivalente às necessidades anuais de 62 milhões de pessoas na África Subsaariana, aproximadamente a população da Tanzânia.
No Salar de Atacama, no Chile, a extração de lítio, por si só, representa até 65% do consumo regional de água, intensificando a competição com a agricultura e o uso doméstico e provocando o esgotamento das águas subterrâneas. Entre 1990 e 2015, o nível dos lençóis freáticos em áreas com poços de salmoura caiu até nove metros.
Na região de Uyuni, na Bolívia, a escassez de água está a dificultar o cultivo de quinoa, base alimentar e económica das comunidades locais.
A procura por grafite e outros minerais essenciais à transição energética e digital deverá quadruplicar ou quintuplicar até 2050.
Ao referir-se aos minerais críticos como o “petróleo do século XXI”, o relatório traça um paralelo com a era dos combustíveis fósseis, sublinhando que os benefícios da extração raramente chegaram às comunidades que suportaram os custos. Sem intervenção política, a transição energética poderá repetir esse padrão, criando novas “zonas de sacrifício” em regiões ricas em recursos, mas economicamente marginalizadas.
“O mundo mobiliza-se para construir um futuro energético mais limpo, e apoiamos essa urgência. Mas a nossa investigação comprova que as operações mineiras estão a contaminar a água potável, a destruir meios de subsistência agrícolas e a expor crianças a metais pesados tóxicos em algumas das comunidades mais vulneráveis do mundo.”
Globalmente, cerca de um sexto (16%) das reservas de minerais críticos está localizado em regiões com elevado stress hídrico, enquanto 54% dos minerais de transição energética se situam em ou perto de territórios indígenas.
Os danos ambientais vão além do consumo de água. Por cada tonelada de minerais de terras raras produzida, são geradas cerca de duas mil toneladas de resíduos tóxicos. Em 2024, a produção global gerou aproximadamente 707 milhões de toneladas métricas de resíduos — o suficiente para encher cerca de 59 milhões de camiões de lixo.
Quem paga a fatura mais elevada? Mulheres e crianças.
A contaminação da água associada à mineração está a criar emergências de saúde pública. Na República Democrática do Congo, principal produtor mundial de cobalto, 72% das pessoas que vivem perto de minas reportaram doenças de pele, enquanto 56% das mulheres e raparigas relataram problemas ginecológicos.
O relatório refere ainda que cerca de 30% das minas no país empregam crianças, algumas com apenas sete anos, muitas vezes sem proteção adequada. Mais de 80% da produção mineral da RDC é controlada por empresas estrangeiras, apesar de mais de 73,5% da população viver com menos de 2,15 dólares por dia.
Ao mesmo tempo, 64% da população não tem acesso básico a água potável, apesar de o país possuir mais de metade da água doce de África.
Os países mais expostos
A nível global, a África detém 30% das reservas de minerais críticos. A RDC, Madagáscar e Marrocos concentram mais de 50% das reservas mundiais de cobalto, sendo que a RDC mantém mais de 60% da produção global entre 2020 e 2024. A África do Sul detém cerca de 90% das reservas de platina e 70% da produção mundial. O chamado Triângulo do Lítio (Argentina, Bolívia e Chile) concentra mais de 50% das reservas globais de lítio. A Indonésia possui 42% das reservas de níquel e representou 51% da produção mundial em 2023, enquanto controla menos de 10% da produção nacional.
Outros dados mostram que 64% da população da RDC não tinha acesso a água potável em 2024, apesar da abundância de recursos hídricos. Em algumas zonas, o cobalto é detetado em níveis superiores no sangue de recém-nascidos.
O relatório também cita exemplos fora da África. Nos Estados Unidos, a mina de Thacker Pass, no Nevada, poderia consumir até 3,5 mil milhões de litros de água por ano, desviando recursos de comunidades agrícolas. No Canadá, o desastre da mina de Mount Polley, em 2014, libertou cerca de 25 milhões de metros cúbicos de resíduos tóxicos em rios e lagos.
Os investigadores defendem mudanças profundas: normas internacionais obrigatórias de diligência, sistemas de descarga zero de poluentes, monitorização independente da água e metais pesados, reciclagem avançada de baterias e equipamentos, acordos de partilha de benefícios com comunidades locais, consentimento livre e informado de povos indígenas e avaliações obrigatórias de impacto na saúde.
O relatório conclui que, sem regras globais vinculativas, a transição energética corre o risco de repetir as injustiças da era dos combustíveis fósseis, criando novas zonas de sacrifício em nome de um futuro mais limpo.
CAIXA
As principais recomendações incluem:
- Padrões internacionais obrigatórios de due diligence substituirão a conformidade voluntária, com mecanismos juridicamente vinculativos para o fornecimento ético e a justiça ambiental.
- Controles rigorosos de poluição e efluentes, incluindo sistemas de descarga zero, e monitoramento independente do uso da água e da contaminação por metais pesados.
- Investimento em soluções de economia circular — incluindo reciclagem avançada de baterias, eletrónicos e componentes de energia renovável — para reduzir a pressão sobre a extração primária.
- Acordos de partilha de benefícios legalmente obrigatórios que destinam uma parte justa das receitas da mineração às comunidades afetadas para serviços de saúde, água e educação.
- Consagração legal do Consentimento Livre, Prévio e Informado (CLPI) para comunidades indígenas cujas terras são afetadas pela extração.
- Sistemas robustos de saúde pública e Avaliações de Impacto na Saúde obrigatórias em regiões de mineração, com a obrigação de as empresas contribuírem financeiramente.
- Investimento em tecnologias de extração com baixo consumo de água, como a extração direta de lítio (DLE), para reduzir o consumo de água doce.
Fonte: Nunbogu, A., Farsi, A., Matin, M., Madani, K. “Critical Minerals, Water Insecurity and Injustice,” United Nations University, UNU-INWEH, 2026, doi: 10.53328/INR25ABN002.