O setor segurador global está a entrar numa nova fase de transformação, impulsionada pela adoção acelerada de inteligência artificial (IA), pelo reforço das estratégias de cibersegurança e por uma nova vaga de fusões e aquisições (M&A). As conclusões constam do mais recente relatório Insurance CEO Outlook da KPMG, que reuniu as perspetivas de 110 CEOs de grandes seguradoras com receitas superiores a 500 milhões de dólares.
De acordo com o estudo, 73% dos líderes do setor apontam a IA como prioridade estratégica, enquanto 83% identificam o cibercrime como o principal risco para o crescimento. Em paralelo, o sentimento de confiança atinge níveis elevados: 82% dos CEOs mostram-se otimistas quanto ao desempenho das suas empresas nos próximos três anos e 78% antecipam um crescimento contínuo da indústria seguradora a nível global.
“O setor dos seguros vive um momento decisivo, em que tecnologia e gestão de risco se tornam fatores críticos de competitividade”, afirma Nuno Esteves, Head of Insurance Sector da KPMG Portugal. “Portugal tem uma oportunidade relevante para acelerar esta transformação e reforçar a sua posição num mercado cada vez mais global.”
O estudo revela também uma intensificação significativa das operações de fusões e aquisições. Metade dos CEOs planeia realizar transações de elevado impacto nos próximos três anos, o valor mais elevado entre todos os setores analisados, enquanto 41% admitem operações de dimensão moderada, sobretudo focadas na aquisição de insurtechs, capacidades analíticas e expansão de negócio.
A inteligência artificial assume um papel central nesta transformação. Cerca de 67% das seguradoras prevê alocar entre 10% e 20% dos seus orçamentos a projetos de IA, com dois terços dos líderes a esperar retorno financeiro num horizonte de um a três anos — um salto significativo face aos 21% registados em 2024. Entre as aplicações mais relevantes destacam-se a automatização de sinistros, a deteção de fraude e a personalização de produtos.
“Estamos perante uma mudança estrutural: a IA deixou de ser experimental para se tornar um motor de competitividade”, sublinha Rui Gonçalves, Partner e Head of Technology Consulting da KPMG Portugal.
Apesar do otimismo, o relatório aponta desafios relevantes. O cibercrime surge como a principal ameaça, com 83% dos CEOs a destacarem a necessidade de reforçar a resiliência digital e a proteção de dados. Acrescem ainda preocupações com os riscos éticos da IA, mencionados por 56% dos inquiridos, sobretudo no que respeita à transparência e enviesamentos dos modelos.
A escassez de talento tecnológico é outro dos entraves ao crescimento. Cerca de 77% dos líderes reconhecem que a falta de competências em IA limita a expansão das suas organizações, enquanto 75% apontam para uma concorrência crescente na captação de profissionais qualificados. Neste contexto, a formação interna ganha relevância, com 83% das seguradoras a indicarem que a IA já está a transformar os seus programas de desenvolvimento de talento.