Marcas de luxo apostam no Médio Oriente mas guerra prejudica planos

Empresas de alto padrão, como Louis Vuitton e Hermès, procuram outras regiões após queda nas vendas. Executivos esperam que consumidores afetados transfiram gastos para outros países.

Marcas de luxo apostam no Médio Oriente mas guerra prejudica planos
FILE PHOTO: Rachel Koffsky, International Senior Specialist at Christie's Handbags & Accessories, poses with a piece titled "A rare, matte white himalaya niloticus crocodile Birkin 25 with palladium hardware, Hermes, 2013" which is on display as part of "Handbags Online: The London Edit" at Christie's in London, Britain, November 18, 2021. REUTERS/Tom Nicholson/File Photo

Quase dois meses de guerra no Médio Oriente enfraqueceram o mercado bilionário de empresas que vendem artigos como bolsas de couro de crocodilo e pulseiras de diamantes. As marcas de luxo do mundo estão a tentar mitigar os danos.

No Zegna Group, que alberga a marca de roupas masculinas de alto padrão Zegna, funcionários começaram a transferir estoques da região para mercados menos voláteis, como Londres e Paris.

Executivos dizem esperar que expatriados que deixaram as suas casas em cidades como Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, e Manama, no Bahrein, continuem a gastar em artigos de luxo noutros países, e que turistas que planeavam viagens para áreas agora afetadas pela guerra fizessem compras noutros destinos.

Mas quanto aos próprios países do Golfo Pérsico, onde o turismo diminuiu drasticamente, há pouco alívio no horizonte, além de um cessar-fogo de curto prazo entre Estados Unidos, Israel e Irão. Para as marcas, não há muito mais a fazer além de esperar.

“Essa mercadoria tem que ir para outro lugar”, disse Ermenegildo Zegna, fundador da Zegna, em entrevista. “O que esperamos é conseguir atender esses clientes importantes, se não lá, então em alguma outra parte do mundo.”

O Médio Oriente tornou-se uma fonte vital de crescimento para muitas marcas de luxo, à medida que as vendas de artigos de luxo desaceleraram na Europa e na Ásia nos últimos anos. Essas empresas duplicaram a aposta na região do Golfo, que responde por uma parcela significativa da riqueza global, abrindo mais lojas e investindo mais nas suas operações de ecommerce.

Marcas de luxo como Dior, Ferragamo e Moncler investiram numa rede de varejo em todo o Médio Oriente, operando lojas em Dubai e Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, e em Doha, no Qatar.

Marcas europeias também investiram forte na região. No ano passado, a Louis Vuitton criou uma loja temporária de Ramadão no Dubai, e a Prada lançou uma coleção exclusiva de Eid al-Fitr. A Zegna realizou um desfile de moda de verão na Ópera de Dubai.

Nos dias seguintes ao início da guerra liderada pelos EUA no Irão, em fevereiro, as marcas fecharam muitas das suas lojas nos países do Golfo. A maioria foi reaberta, mas as vendas caíram vertiginosamente.

A LVMH, a maior empresa de luxo do mundo, que possui marcas sofisticadas em categorias que vão de moda a beleza e bebidas destiladas, disse que a procura por algumas marcas na região caiu até 70% quando a guerra se intensificou em março. A direção afirmou que estava a contar que a elite do Médio Oriente continuasse gastando no exterior.

“O que vemos hoje é que a procura ainda está muito baixa”, disse Cécile Cabanis, diretora financeira da LVMH, a investidores numa teleconferência neste mês. “O que sabemos é que a riqueza não evaporou.”

A LVMH disse que “permanece vigilante” em relação aos lucros deste ano por causa da incerteza geopolítica.

A Kering, dona de casas de moda como Gucci e Saint Laurent, disse que ativou uma unidade de crise para gerir as suas operações no Médio Oriente. A rede de retalo da empresa na região voltou a funcionar, mas a receita caiu 11% no último trimestre.

“No Médio Oriente, são os fluxos de turistas que estão a sofrer mais do que os locais”, disse Armelle Poulou, diretora financeira da Kering, a investidores neste mês.

Mas problemas com o turismo também estão a desenvolver-se fora do Médio Oriente, especialmente em lugares que os residentes do Golfo costumam visitar.

A Hermès, conhecida pelas suas bolsas de couro, disse que algumas das suas lojas na Europa estavam a receber menos compradores de lugares como Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Bahrein. As vendas nas suas lojas em Paris têm sido particularmente fracas.

“Podemos ver na Europa uma queda no número de turistas do Médio Oriente”, disse Eric du Halgouët, diretor financeiro da Hermès, recentemente a investidores. “Vemos isso na Suíça, no Reino Unido, por exemplo, mas também em Itália.”

A Hermès também teve que interromper ou adiar entregas para as suas lojas operadas por terceiros no Qatar, Bahrein e Kuwait, disse a empresa. Também teve dificuldades para enviar mercadorias para lojas em aeroportos na Ásia, porque esses itens frequentemente transitam pelo aeroporto de Dubai, que foi afetado durante toda a guerra.

Executivos do setor de luxo ainda veem o Médio Oriente como um motor de crescimento de longo prazo, desde que os polos turísticos consigam novamente atrair viajantes e os expatriados retornem. Antes da guerra, as vendas anuais estavam a crescer até 8%, segundo estimativas da Bernstein Research.

O movimento de clientes nas lojas da Brunello Cucinelli, conhecidas pelas malhas de caxemira, no Médio Oriente caiu 50% em março, embora todas as lojas da marca permaneçam abertas.

Os executivos da empresa ainda têm grandes planos para a região do Golfo. O fundador da marca, Brunello Cucinelli, que também é CEO e diretor criativo, disse a investidores que porta-vozes da empresa viajariam pelo mundo para apresentar um documentário neste ano, procurando reconquistar clientes do Médio Oriente, apesar de uma guerra “dolorosa e inesperada”.

“É difícil aceitar isso nos nossos tempos modernos”, disse Cucinelli neste mês. “Para mim, sou um amante da história. Sabemos que a guerra faz parte da nossa história o tempo todo.”

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