Preço do gás pressiona setor têxtil português

A subida acentuada do preço do gás está a agravar os custos da indústria têxtil portuguesa, sobretudo nas áreas mais intensivas em energia, como o acabamento. Perante a perda de competitividade e a imprevisibilidade do mercado, o setor defende que a Comissão Europeia volte a aprovar medidas de compensação.

Preço do gás pressiona setor têxtil português
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O setor têxtil já enfrentava dificuldades no mercado internacional, explica Mário Jorge Machado, presidente da European Apparel and Textile Confederation (Euratex), uma vez que o preço do gás na Europa já era três vezes superior ao dos Estados Unidos antes de estalar a guerra do Irão. “Agora o preço quase duplicou”, afirma.

Segundo o responsável, a situação é particularmente preocupante para as empresas têxteis que se encontram no meio da cadeia de produção, especialmente as dedicadas ao acabamento.

Luís Cristino, especialista em sustentabilidade no setor têxtil, partilha da mesma opinião. “As unidades de acabamento, por estarem no centro da cadeia produtiva, acabam por influenciar tanto os fornecedores como os clientes a jusante. Esta escalada do preço do gás está a atingir sobretudo os processos de tinturaria e acabamento, que são muito intensivos em energia. Para um setor exportador como o têxtil, isto significa perder terreno face a concorrentes que pagam a energia mais barata e ter de ponderar paragens de produção, mesmo com carteiras de encomendas cheias. A agravar ainda mais a situação está também a subida da cotação do dólar.”

O especialista em economia circular acrescenta ainda que, na indústria têxtil portuguesa, o gás natural não é um custo marginal, mas sim um fator crítico de competitividade. “Com o preço do gás praticamente a duplicar em poucos dias, muitas empresas estão a produzir com margens negativas e a adiar investimentos apenas para conseguirem manter as máquinas a trabalhar.”

Segundo Luís Cristino, na última crise energética já havia empresas têxteis a ponderar encerrar temporariamente linhas de produção. “Hoje o contexto geopolítico é diferente, mas o efeito é o mesmo. Estamos perante um setor altamente intensivo em energia, que exporta mais de 80% do que produz, a ver o custo do gás duplicar praticamente de um dia para o outro e a perder competitividade face a países com energia mais barata ou com acesso a fontes energéticas de menor custo.”

Mário Jorge Machado refere ainda que o gás russo é mais barato, pelo que alguns países concorrentes poderão aproveitar para se abastecer a preços mais competitivos.

“O que mais preocupa hoje os industriais têxteis não é apenas a subida do preço, mas a imprevisibilidade. Não se conseguem negociar coleções a seis ou nove meses quando o custo do gás pode mudar drasticamente de uma semana para a outra”, explica Luís Cristino.

Mário Jorge Machado recorda ainda que, quando começou a Invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, ocorreu um cenário semelhante, o que levou à criação de uma medida de compensação para mitigar a subida do preço do gás, com intervenção da Comissão Europeia e dos Estados-membros.

“Vamos defender que a Comissão Europeia volte a aprovar ajudas de Estado e recrie essa medida de compensação”, afirma. Apesar de, na altura, a aprovação ter demorado cerca de dois meses, mostra-se esperançoso de que desta vez o processo seja mais rápido, uma vez que os mecanismos já estão definidos.

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