ONU: Trump acusa parte do Ocidente de recompensar o Hamas e a Rússia

Na sua intervenção na 80.ª AG da ONU, o presidente norte-americano gastou parte substancial do tempo a denegrir as decisões da Europa. Não só sobre as guerras em curso na Ucrânia e na Palestina, mas também no que tem a ver com as mudanças climáticas e com a imigração. "Vocês estão a ir para o inferno", disse.

ONU: Trump acusa parte do Ocidente de recompensar o Hamas e a Rússia
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O universo não será exatamente o mesmo, mas há vários países que acumulam a sua presença nos dois grupos que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tomou ‘de ponta’ na sua demorada intervenção na 80.ª Assembleia-Geral (AG) da ONU.

Trump disse, sobre os países que decidiram reconhecer o Estado palestiniano, que a medida foi tomada “para encorajar a continuidade do conflito”; “as recompensas serão grandes demais para os terroristas do Hamas pelas suas atrocidades. Esta seria uma recompensa por essas atrocidades horríveis, incluindo a de 7 de outubro”. Mais à frente, o presidente dos Estados Unidos afirmou que “nem mesmo os países da NATO cortaram grande parte do fornecimento de energia e produtos energéticos russos. Eles estão a financiar a guerra contra si mesmos. Estão a comprar petróleo e gás da Rússia enquanto lutam contra ela. É constrangedor”.

Anunciando que os Estados Unidos estão prontos para impor tarifas à Rússia – o que, para espanto de muitos analistas, nunca chegou a ser feito – se não for alcançado um acordo para acabar com a guerra. “Mas, para que essas tarifas sejam efetivas, as nações europeias, todos vocês reunidos aqui, teriam que se juntar a nós na adoção dessas medidas”. Trump estaria com certeza a recordar-se de ter aconselhado a União Europeia a impor taxas de 100% à China e à Índia enquanto estes países continuassem a comprar petróleo e gás à Rússia, o que, pelo menos para já, o bloco dos 27 não cumpriu.

Ao longo de seu discurso, Trump abordou os temas mais caros ao seu projeto de administração – que decorre das promessas feitas durante a campanha que o levou de regresso à Casa Branca.

Assim, disse, sobre a imigração, “vocês estão a destruir os vossos países. Estão a ser destruídos. A Europa está em sérios apuros, foi invadida por uma força de imigrantes ilegais como ninguém jamais viu. Imigrantes ilegais estão a invadir a Europa”. “Os vossos países estão a ir para o inferno”, disse, e acusou as Nações Unidas de “apoiar pessoas que estão a entrar ilegalmente nos Estados Unidos. E por isso temos que os tirar de lá”: “a ONU deve impedir invasões, não criá-las e financiá-las”, rematou.

Já sobre as alterações climáticas, Trump voltou à retórica negacionista: “essas mudanças climáticas são o maior golpe já perpetrado no mundo, na minha opinião”. “Chega de aquecimento global, chega de resfriamento global. Todas essas previsões feitas pelas Nações Unidas e por muitos outros países, muitas vezes por motivos enganosos, estavam erradas. Foram feitas por pessoas estúpidas, custaram fortunas aos seus países e não deram a esses mesmos países nenhuma hipótese de sucesso. Se vocês não se livrarem dessa farsa verde, os vossos países vão fracassar”, disse. Recorde-se que a ONU – que tem nas alterações climáticas um dos pontos da agenda da AG – pediu que os países apresentassem planos climáticos atualizados, na tentativa de reavivar o impulso global para as combater. “A propósito, estamos a livrar-nos das energias renováveis. Elas são uma piada”; “A Europa, por outro lado, tem um longo caminho a percorrer, com muitos países à beira da destruição por causa da agenda da energia verde”, afirmou.

Apesar de todas as críticas lançadas um pouco para todos os lados, nomeadamente às próprias Nações Unidas, Trump decidiu acabar em tom conciliatória, quase poético: “vamos todos trabalhar juntos para construir um planeta brilhante e bonito, um planeta que todos nós compartilhamos, um planeta de paz num mundo mais rico, melhor e mais bonito que nunca. Isso pode acontecer. Vai acontecer”. Ou talvez não.

 

Palestina em grande plano

Parte das restantes intervenções tomou a Palestina como objeto. O presidente da Turquia, Recep Erdogan, foi o mais interventivo: “estou aqui neste palco ao lado dos meus 86 milhões de cidadãos. E também pelos nossos irmãos e irmãs palestinianos cujas vozes estão a ser silenciadas”. “Gostaria de agradecer a todos os países que anunciaram que reconhecem o Estado da Palestina e apelo a todos os outros que ainda não o fizeram para que o façam”, afirmou.

O presidente indonésio Prabowo Subianto fez uma defesa robusta da ONU e dos princípios e missões que ela representa: “acreditamos nas Nações Unidas. Continuaremos a servir onde a paz precisa de guardiões”, disse, para assegurar que o seu país está pronto para apoiar “ações no terreno”, nomeadamente com suporte financeiro. “Se e quando o Conselho de Segurança das Nações Unidas e esta Grande Assembleia decidirem, a Indonésia está preparada para enviar 20 mil ou mais dos seus filhos e filhas para ajudar a garantir a paz em Gaza ou em qualquer outro lugar”: “na Ucrânia e no Sudão, na Líbia, em todos os lugares. Estamos prontos”, afirmou, para motivar um dos mais fortes aplausos do dia.

Como sempre, sucederam-se vários incidentes, alguns deles com graça. Na segunda-feira anterior à AG, o presidente francês Emmanuel Macron, que seguia no passeio em direção à sede da ONU, foi barrado por um polícia da cidade de Nova Iorque por causa da passagem da comitiva de Donald Trump. Atrás de uma barreira, Macron ligou pessoalmente a Trump para brincar com a situação. “Adivinhem? Estou à espera na rua porque está tudo parado para vocês”, disse.

No dia seguinte, em plena AG, Trump descobriu, quando iniciava a sua intervenção, que o teleponto que tinha à sua frente não funcionava. “Desta forma, fala-se mais com o coração”, disse. “Só posso dizer que quem quer que esteja operando este teleponto está em apuros”, disse, para mais tarde dizer que o teleponto era uma das únicas coisas que a ONU lhe dera. No final, e tendo-se descoberto que o teleponto avariado era operado a partir da Casa Branca, a presidente da AG, Annalena Baerbock, disse: “gostaria de garantir que, não se preocupem, os telepontos da ONU estão a funcionar perfeitamente”.

O que também podia ser mas não é uma piada: a Casa Branca prepara-se para lançar sanções sobre vários membros componentes do Tribunal Penal Internacional (TPI), que tem em mãos, entre outros assuntos, uma acusação de crimes de guerra contra o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu.

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