Bolívia: direita vai vencer a segunda volta das presidenciais

Dois candidatos de direita passaram para a segunda volta das presidenciais no país sul-americano governado pelos socialistas há duas décadas. O MAS, do ex-presidente Evo Morales, está cada vez mais próximo de passar à oposição.

Bolívia: direita vai vencer a segunda volta das presidenciais
Bolívia

As eleições presidenciais da Bolívia, que decorreram este domingo, vão ter uma segunda volta (a 19 de outubro) depois de nenhum dos candidatos ter conseguido alcançar a maioria. A fragmentação dos votos e o crescimento da direita indicam que a esquerda do país, no poder há cerca de duas décadas, está a enfrentar condições adversas para se manter no poder e poderá mesmo ser ‘destronada’ pela direita. Recorde-se que, desde 1982, não havia necessidade de uma segunda volta das presidenciais na Bolívia.

O senador centrista Rodrigo Paz ganhou a primeira volta (com cerca de 33%) e vai agora enfrentar Jorge ‘Tuto’ Quiroga, ex-presidente de direita que atingiu os 26%. O centrista conseguiu reunir em seu torno o apoio das igrejas evangélicas que se instalaram no país e que – tal como sucede num número cada vez maior de países sul-americanos – se assumem como uma espécie de sindicato de voto cada vez mais poderoso.

O milionário Samuel Doria Medina, favorito em todas as sondagens até há uma semana, terminou em terceiro, com 20%. Surgem depois o candidato de esquerda Andrónico Rodríguez (8%), ex-discípulo de Morales; Manfred Reyes Villa, da aliança de centro-direita APB-Sumate (6%); e o candidato apoiado pelo governo, Eduardo del Castillo (3%), ex-ministro do atual presidente Luis Arce. Arce decidiu não concorrer à reeleição devido à baixa popularidade de que desfrutava, e a péssima votação de Castillo dá-lhe toda a razão. Vários outros candidatos não chegaram aos 2%.

Durante os cerca de 14 anos que esteve no poder, Morales – que beneficiou de uma ‘onda’ de esquerdismo que assolou a América Latina de então, muito à custa do brasileiro Inácio Lula da Silva – apoiou fortemente a criação do Estado providência e tratou de emancipar a maioria indígena, da qual aliás fazia parte.

O ex-presidente boliviano, que governou entre 2006 e 2019, foi impedido de disputar as eleições gerais que também se realizaram este domingo e alvo de um mandado de prisão. Posteriormente, afirmou que as eleições não têm legitimidade e assegurou que o voto nulo, que convocou em protesto, prevaleceria. Luis Arce e Evo Morales acabariam por envolver-se numa disputa interna pela liderança do MAS, o que fragmentou o partido e aumentou as hipóteses de a oposição afastar os socialistas do poder.

Mais de 7,9 milhões de bolivianos foram convocados a votar para escolher o novo presidente e renovar os 166 lugares da Assembleia Legislativa. O país atravessa uma crise económica severa, com inflação anual próxima de 25%, falta de combustíveis e escassez de dólares.

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