Maior central solar portuguesa vai ser híbrida após investimento de 400 milhões

O promotor irlandês Welink está a preparar um investimento para aumentar a capacidade solar e criar duas centrais eólicas e ainda uma solução de armazenamento com baterias.

Maior central solar portuguesa vai ser híbrida após investimento de 400 milhões
solara4

A maior central solar em Portugal já esteve perto de ser vendida, mas agora a Welink quer rentabilizar ao máximo o projeto localizado em Alcoutim, distrito de Faro.

O promotor irlandês prepara um investimento milionário para aumentar a capacidade solar, criar duas centrais eólicas e uma solução de armazenamento com baterias. A ideia de hibridizar prende-se com a ambição de ter a Solara4 a produzir eletricidade 24 horas por dia, rentabilizando ao máximo o ponto de ligação com 200megawatts (MW).

Esta central não conta com tarifas garantidas e vende toda a sua eletricidade no mercado.

“Estamos a procurar potenciar ao máximo o ponto de ligação com projetos de hibridização. Ainda há mais espaço para optimizar o projeto com sobreequipamento de solar. E estamos a estudar o recurso do vento já há mais de um ano”, disse ao JE Hugo Paz, diretor de projetos para a Ibéria da Welink.

Sobre o projeto eólico, o responsável disse a empresa está a iniciar o processo para a Avaliação de Impacte Ambiental (AIA). “São aproximadamente 25 máquinas, pode rondar os 150 MW”. Em termos de energia solar, a companhia tem um projeto abaixo dos 50 MW.

“Vamos tentar duplicar a potência instalada, temos 220 MW, vamos chegar aos 400 MW e qualquer coisa”, afirmou, fazendo contas somente à primeira fase. Se for incluída a segunda central eólica, a potência vai passar a rondar os 500 MW.

Mas o projeto não fica por aqui. “Estamos a prover neste momento um projeto de 80 megas de armazenamento com quatro horas de capacidade”. A empresa está interessada em participar no leilão de armazenagem já anunciado pelo Governo.

Mais à frente, também está na calha outro projeto eólico. “O segundo parque eólico é mais pequeno, com uma localização próxima, mas que pretende dar a continuidade” ao primeiro projeto. “Estamos a falar aproximadamente de 13 a 15 máquinas. Podemos estar a falar entre 80 a 90 megas, dependendo da máquina que vamos selecionar”.

Para a primeira fase, a Welink prevê um “investimento aproximadamente de uns 200 milhões para o eólico e uns 35-40 milhões para o solar. Portanto, são 230-250 milhões”, explicou na conversa com o JE. Para o projeto do armazenamento, a companhia irlandesa prevê investir “70 milhões de euros”. E para a segunda fase eólica, está previsto um investimento de “100 milhões de euros”.

Tudo somado, a companhia prevê investir entre 400-420 milhões de euros na nova vida da central conhecida inicialmente por Solara4 e batizada depois com o nome de Ricardo Totta. Quando tudo estiver concluído, a companhia pretende fechar um a dois PPA (acordo de compra e venda de energia) com empresas.

“Oobjetivo é ter tudo pronto até 2030 para poder oferecer um terawatt de energia limpa ao sistema”, ambiciona Hugo Paz.

Questionado se a Welink está vendedora do projeto, falhado o negócio com os alemães da Allianz (que compraram outra central da empresa, a Ourika (50 MW), em Ourique, Beja), o gestor rejeita. “Não. Pretendemos continuar a operar o projeto da melhor maneira possível, otimizar alguns pontos que inicialmente não foram bem concebidos e estamos a conseguir, queremos implementar todo este projeto”.

Simplex não ajudou
A experiência da companhia com o regime Simplex não foi o melhor. Inicialmente, pensou que iria ajudar, mas o tiro saiu pela culatra.

“Quando saiu o Simplex, tivemos um pequeno revés. Tentámos enquadrar os nossos projetos nessa lei, mas foi uma perda de tempo. Apesar de a lei tentar ser o mais clara possível, está sempre aberta a diferentes interpretações, que foi o que aconteceu entre os nossos consultores, a DGEG e a APA. Isto foi um revés para o sobreequipamento solar”, afirmou Hugo Paz.

“Também tentámos englobar o projeto eólico no Simplex, com 19 máquinas, em áreas não-sensíveis, áreas não-RAN [Reserva Agrícola Nacional], cumpria todos os pressupostos para obter a aceleração no processo de licenciamento, com uma isenção no processo de AIA, mas a decisão da DGEG não foi neste sentido”, acrescentou.

“Ao tentarmos levar os projetos no Simplex, perdemos tempo, porque agora temos de voltar atrás e começar de novo. São estas as maiores dificuldades que estamos a ter. Para nós, o Simplex não foi uma ajuda. Espero que haja esclarecimentos para que não aconteça a mesma coisa a outros promotores. Mais uma vez, somos um dos primeiros a tentar desenvolver este tipo de projetos. E estamos a enfrentar dificuldades”, segundo Hugo Paz.

“Vamos voltar a submeter o primeiro projeto de sobreequipamento, pretendemos que esteja preparado para começar a construir até ao final deste ano. Lembramos que a DGEG tem, salvo erro, 45 dias para responder a este tipo de casos, se não for acompanhado por este tipo de resposta, vai ser completamente impossível, o que cria uma incerteza por parte dos investidores a olhar se Portugal é ou não o melhor destino para continuar a investir. Há muita pressão interna, muita competição. Onde é que devemos alocar os nossos capitais próprios: Portugal? Itália? Espanha? Outro país? Portugal tem de tomar atenção a isso para não perder estas oportunidades”, disse.

“Relativamente ao eólico, iniciaremos o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) já neste mês de julho. A lei diz 150 dias, provavelmente mais 30 dias para pedir os novos pedidos de elementos adicionais: 180 dias. Estamos a considerar no nosso planeamento aproximadamente 250 dias já com alguma margem. Não podemos ser muito optimistas, não podemos ser muito pessimistas”, destacou.

Questionado sobre a queda nos preços grossistas verificada na reta inicial do ano, Hugo Paz diz que é uma “preocupação controlada. Criou-se aqui um cenário perfeito para que, em alguns momentos, os preços fossem continuamente a zero nas horas de captura solar. Para quem está no mercado, é uma situação difícil. Neste momento, estamos no mercado, não estamos a beneficiar de nenhum PPA. Mas pensamos que são situações pontuais. Vão voltar a ocorrer, temos de nos precaver para este tipo de situações. Para continuar a atrair investimento para Portugal tem de se pensar num mercado diferente da energia. Portanto, um mercado que prevê um valor mínimo para a produção renovável que é igual ao valor da produção do sistema mais barato fóssil que houver, mais o custo das emissões. Isso seria uma solução, o que daria a confiança aos investidores que não estão a pôr o investimento de graça e com um risco muito grande, porque ninguém sabe o que pode acontecer”, defendeu.

Sobre a alteração da lei 15/22, espera que “confirme a possibilidade de aceder aos 20% de capacidade adicional que no momento atual só está previsto para quem faça reequipamento, originalmente pensado para projetos antigos de eólico. Se se concretizar, acrescentaria valor aos projetos, que seriam mais fáceis de financiar”, concluiu Hugo Paz.

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