Filipe Garcia, Economista Conselheiro; IMF, Informação de Mercados Financeiros

Mar Vermelho e inflação

Poderá a situação no Mar Vermelho provocar um novo surto inflacionista?

A probabilidade de um novo surto inflacionista global devido à situação no Mar Vermelho é baixa. Ao contrário do que ocorreu durante e após o período da pandemia, não enfrentamos uma perturbação generalizada que afete o funcionamento dos portos. Não há indícios, até ao momento, de escassez de navios ou de aumentos abruptos na procura por produtos ou matérias-primas, dado que os stocks estão relativamente bem abastecidos.

Portanto, trata-se de uma situação que impacta algumas cadeias de abastecimento, mas as lições aprendidas durante a pandemia sugerem que estas possam ajustar-se de maneira mais ágil a esta nova normalidade.

A rota mais afetada é aquela que liga a China ao Atlântico Norte, na qual houve uma forte subida do preço dos fretes, mais do que triplicando desde dezembro e mais do que quintuplicando desde outubro, após o ataque do Hamas a Israel. Os países mais diretamente atingidos pelos ataques aos navios no Mar Vermelho são o Egito, que recebe as tarifas de passagem no Canal do Suez, e a China, cujas exportações tornam-se mais dispendiosas e mais demoradas. Esse impacto acaba por refletir-se indiretamente nos destinatários finais desses produtos.

A subida dos preços dos fretes, em si mesma, tem um efeito inflacionista. No entanto, não se trata de um fenómeno que afete todo o mundo tendo, por isso, impacto limitado. Por outro lado, ao dificultar e encarecer as exportações chinesas e de outros países asiáticos, a situação contribui para um abrandamento económico nessa região, o que, em última análise, pode ser deflacionista.

Justifica-se também olhar para os preços do petróleo e do gás. Avaliado em euros, o crude está a níveis semelhantes aos de dezembro e cerca de 14% abaixo dos preços que se observavam antes de 7 de outubro. O gás natural está agora 60% abaixo da cotação de há um ano, as renováveis têm mais capacidade instalada e foi um inverno chuvoso. Portanto, não será pelo impacto dos ataques houtis nos preços da energia que a inflação voltará a subir.

Do ponto de vista geopolítico, o contexto poderá favorecer a relação entre Pequim e o Ocidente. Como referido, a China é um dos países mais afetados e agradece a intervenção feita pelos EUA e Reino Unido. Os houtis são apoiados pelo Irão e, este, pela Rússia. Portanto, trata-se de um potencial foco de tensão entre Pequim e Moscovo que o Ocidente poderá capitalizar.

Relacionado

Reservas de gás da União Europeia estão no nível mais baixo em 15 anos

Reservas de gás da União Europeia estão no nível mais baixo em 15 anos

Ruben Pires3 Set
De acordo com a publicação BiGo Finance o nível de reservas de gás que a União Europeia detém nesta altura deve-se a um erro de cálculo. O bloco europeu vinha adiando as compras de gás na expetativa de que o conflito no Médio Oriente, que se iniciou em fevereiro entre Estados Unidos, Israel, e Irão, tivesse um desfecho rápido, permitindo que o gás natural vindo do Qatar voltasse a passar pelo Estreito de Ormuz a um preço mais baixo. Contudo o cenário de momento não se concretizou.