Filipe Garcia, Economista Conselheiro; IMF, Informação de Mercados Financeiros

Construam-me?

Será mesmo impossível criar sistemas que ajudem a uma melhor distribuição da água pelo território?

Não me esqueço quando, há mais de 20 anos, me contavam sobre um israelita que visitava Portugal pela primeira vez. Perguntaram-lhe o que achava do que já tinha visto e ele respondeu: “Estou a adorar, gosto das pessoas, das paisagens e da comida. Mas faz-me confusão que vocês desperdicem tanta água dos rios ao deixarem que desaguem no mar”.

Esta semana, a APA – Agência Portuguesa do Ambiente dizia que a “escassez de água no Algarve é a pior de sempre”, o que é algo dissonante com o facto de as barragens a norte estarem já a 75 e 90% da capacidade, depois de um outubro invulgarmente chuvoso, que deixou muitas regiões inundadas.

Confesso, estou a escrever sobre um tema que não domino, mas o senso comum, e talvez também o bom senso, deveria obrigar-nos a pensar se o tal israelita não terá alguma razão. Vem-me à memória a frase batida que ficou ligada ao Alqueva – “Construam-me…”. Demorou décadas, demasiadas, mas a obra foi feita, revolucionou aquela região, gera riqueza e o impacto positivo é inquestionável.

É compreensível que as soluções técnicas para impedir o desperdício de água dos rios possam ser complexas, discutíveis, dispendiosas e com impacto ambiental. Como referi, percebo pouco do assunto. Mas seria importante trabalhar o tema de forma séria, sistemática e interessada, até porque as previsões da maioria dos cientistas apontam para períodos de seca mais prolongados, a par de tempestades pontuais, mas com grande pluviosidade concentrada em pouco tempo.

Ou seja, será mesmo impossível criar sistemas que ajudem a uma melhor distribuição da água pelo território e que, de permeio, até possam ajudar a prevenir algumas inundações?

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