A polícia libanesa viu-se obrigada a disparar gás lacrimogéneo contra centenas de pessoas, a maioria membros reformados das próprias forças de segurança, que se reuniram perto da sede do governo na capital do país, Beirute, para protestarem contra a deterioração das condições económicas – que, não sendo na altura famosas, têm vindo a piorar desde as explosões que fizeram a cidade tremer em agosto de 2020.
Os manifestantes reuniram-se nas ruas do centro de Beirute empunhando a bandeira tricolor do Líbano ou bandeiras com os logotipos das forças de segurança – num protesto que foi convocado por soldados na reforma e que foram acompanhados por muitos anónimos que se queixavam do acesso limitado às suas economias. Os bancos locais impuseram controlos informais de concessão de capital para tentarem combater a crise financeira em que o Líbano está atolado – já considerada pelos analistas como a pior da história moderna do país.
Os manifestantes, que exigiam melhores salários, atiraram pedras contra as forças policiais que protegiam a sede do governo e tentaram repetidamente romper o cerco para, supõe-se, a invadir.
Um dos aspetos mais cruéis da crise foi a desvalorização das pensões do Estado pagas em moeda local. A libra libanesa perdeu mais de 98% de seu valor em relação ao dólar dos Estados Unidos desde 2019, com a situação se deteriorar-se ainda mais nas últimas semanas: a moeda atingiu uma nova baixa na passada terça-feira, sendo vendida por mais de 143 mil libras por dólar (a taxa oficial é de 15 mil libras por dólar).
O Líbano está no quarto ano de uma profunda crise económica, que os especialistas dizem ter suas raízes em décadas de corrupção e má administração por parte de uma classe política que governa o país desde o final da década de 1990.
Os libaneses acreditam que a elite política e empresarial não quer resolver a crise porque isso envolveria reformas económicas e estruturais e o combate à corrupção. A comunidade estrangeira em geral e os países doadores em particular têm salientado esse ponto: não estão interessados em enviar mais financiamento para o país se não houver qualquer tipo de garantias internas de que o dinheiro não será desviado. O próprio FMI tem tentado implicar a concessão de novos empréstimos internacionais às alterações internas necessárias – mas não tem tido êxito.
A crise levou ao encerramento de escolas e deixou milhares de famílias incapazes de pagar o sustento, combustível ou outras necessidades básicas – ao mesmo tempo, a eletricidade, subsidiada pelo governo, não está disponível em largas extensões da cidade, segundo relatam as agências internacionais no terreno.